terça-feira, 2 de junho de 2015

A mulher que não tive porque perdida

"Vê aquela ali?". Olhei. "Ela é alienígena, cara. Veio de Zeta Reticuli ou coisa parecida. É doida. Ninfomaníaca". "É?". Olhei a dona mais atentamente. Era loura e tinha belos quadris e pernas. "Disse que seu objetivo na Terra é reprodução. Sabe-como-é, mistura genética. Diz que seu povo às vezes nasce com deformidades: três braços, duas cabeças...". "É?". O cara falava e falava e eu só olhando a dona. "Tem gente lá que também nasce com rabo...". Ele viu minha cara. "Não esse tipo de rabo. Todas nascem com esse rabo. Mas digo rabo mesmo, de macaco". "É?". "É, é estranho mesmo". "Pois quero ver essa dona nua". "Cara, ela é alienígena...". "Quero fazer parte da experiência. Só vou conversar amenidades, como andam as coisas lá em cima". "Cê é louco, cara?". "Só um pouco". Já estava indo quando a mulher se levantou. Havia algo atrás em sua calça jeans, uma protuberância arredondada que descia pelo rêgo da bunda. Era visível e todos faziam que não viam. "É", eu disse, "estranho, muito estranho". Desisti e voltei ao meu drinque. "Eu não disse? Eles estão no meio de nós, cara". O doido, então, riu seu riso de vitória.

Por que não isso?

pare de fazer “o grande romance”,
não escreva sobre hipóteses, mas sobre
o chão vivido, pisado, sentido,
não invente mundos, porque
a realidade é mais pulsante e satisfatória
do que qualquer um deles,
pare de se conspurcar
com “literatura”

busque quem soca, quem escarra,
quem fala às entranhas,  os transgressores,
toda a página deve urrar para o leitor,
aliás, nada de “romance”, “novela”, conto”
e  “crônica” – só escritos, de fogo, de fel,
traumáticos e coleantes,
poemas sim

pare de ser “escritor” e seja apenas
um sujeito passando o tempo
com a página em branco –
mas com calma,
sintonia e
leveza

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Sandra Dee e Sylvia

Sandra Dee Dee foi de bar em bar procurando Tommy. No Lancaster ela o encontrou bolinando Sylvia. Sandra viu vermelho. Partiu para cima de Sylvia com a lâmina. Deixou uma bela marca em seu rosto. É assim que mulheres marcam seu território e seus homens, fodendo com as outras de melhor qualidade. Sylvia dificilmente vai encontrar agora alguém que lhe coma, pois entrou na posse de Dee Dee. Animais são mais sociáveis do que mulheres que topam com outras mulheres no colo de seus homens. Já presenciei brigas homéricas em bares e becos por essa razão. Boas lutas, bons golpes.

Um dia fenomenal em Kansas


um dia o porre foi tão bruto
que guardei a carteira no congelador
do refrigerador
acordei tonto, tropeçando na cadeiras,
uma dor de cabeça infernal,
fui até o banheiro,
vomitei,
depois vi minhas calças
jogadas no corredor do apê,
o alarme acendeu,
fui direto nos bolsos:
- Cadê a porra da carteira? Oh, meu Deus, não faça isso comigo...
Revirei o apartamento como um insano,
procurando a droga da carteira,
tirei almofadas, botei o rosto nos fundos do
armário, observei se debaixo do tapete tinha algum monte,
olhei até na privada, para ver se não estava entupida,
com a ponta do objeto pra fora. Nada.
Aproveitei e caguei para regular os nervos,
me acalmar, respirar.
- Caralho, fui roubado ou deixei a carteira cair do bolso,
em todo o caso, FODEU!
me lmpei e fui até o refrigerador,
uma cerveja talvez melhorasse as perspectivas,
fui, imaginando os documentos que teria que tirar 2ª via,
peguei a Bud e, não sei o porquê, resolvi olhar o congelador,
E LÁ ESTAVA ELA, A MALDITA DA PORRA DA CARTEIRA!!!
A segurei com fervor, tremendo, como se tivesse
em minhas mãos os pregos da Cruz de Cristo.
Beijei o troço petrificado,
sorvi um longo gole da cerva,
e, relaxado, coloquei  a carteira aberta,
ao sol,
e, bem, tudo voltou a ser a maravilha de antes,
uma vida que não era das piores.

Enquanto tranquilo aqui estou

tenho mais de 300 poemas e textos curtos
e o público continua querendo mais, mais do quê?
por Deus, são mais de 300 poemas, porra,
mas as pessoas não se cansam,
querem visitar ruínas,
ver se o sujeito esqueceu
uma parede sem ser demolida,
querem ver a última bebedeira,
o copo se espatifar no chão,
"Dusquene ir à merda"

fodam-se vocês todos, miseráveis!
eu sou como vocês estão todos os dias
de suas vidas opacas e sem sentido,
vomitando a bílis das palavras sem lastro,
que entrego a vocês, de graças

mais de 300 poemas e essa merda em vão...
vão aos escritos dos primeiros tempos,
há Dusquene lá também, melhor do que hoje,
muito melhor

deem-me a gratidão do esquecimento
por uns dias, vou ao bar,
que o bar é logo em frente

Íris o pensamento não soa

me vejo
num pátio esverdeado,
mas, antes, em uma casa de paredes
brancas, com vigas à mostra,
um madeirame forte

vejo, junto a outros indivíduos,
num céu tremendamente escuro,
penso ser a lua,
penso no copo de vinho tinto
em minha mão, na garrafa
na mesinha

então, volto, de repente,
ao pátio verde-claro, está frio,
não sei o que faço ali

a cor das paredes
do pátio
me embota os sentidos,
meu estômago revira,
as paredes
são verdes,
e só penso em sair dali

Bilhete aberto para o evento em que me encontro

o catador de latas
de cerveja
que passa por mim
diariamente
e me cumprimenta,
o velho mendigo,
catador de latas
de cerveja

nunca o vi reclamar, mal-dizer,
xingar, imprecar, mandar
tomar no cu,
nunca o vi

sua alma é bem melhor do que a minha,
muito melhor,
o catador de latas
de cerveja conhece algo
que eu não sei

e eu, este pobre diabo,
lhe pede passagem