asma,
asma,
bronquite crônica,
o torpor, o desfalecimento,
uma espécie de nirvana
natimorto
os outros estão dormindo
e você sentado, como Buda,
altas horas, na cama,
num quarto retirado,
porta fechada,
tentando puxar o ar
para os pulmões
lembro-me, quando criança,
das infinitas passagens
por hospitais,
madrugadas insones.
em crise extrema
atendimento médico,
nebulização,
o ar retornando lentamente,
calmamente, a tensão se esvaindo,
os brônquios distendendo
os desenhos infantis
na parede da clínica,
"Peter Pan", "Mickey", "Pluto",
"Pateta", "Cinderela",
até "Cinderela" havia
na porra da parede da clínica
eu gostava do "Peter Pan"
sempre me pareceu um garoto que,
quando crescesse, saberia
das coisas boas da vida
sábado, 2 de maio de 2015
Febre
ramerrão é
heroísmo
acordar, cagar,
escovar os dentes,
tomar uma ducha,
vestir o "uniforme"
rotina é heroísmo
mantê-la é heroísmo
por dez, vinte, trinta anos
porra,
se isso não é heroísmo
não sei o que seja
heroísmo
acordar, cagar,
escovar os dentes,
tomar uma ducha,
vestir o "uniforme"
rotina é heroísmo
mantê-la é heroísmo
por dez, vinte, trinta anos
porra,
se isso não é heroísmo
não sei o que seja
sexta-feira, 1 de maio de 2015
Union Square
estamos unidos
na mesma enfermidade,
e nos esforçamos para
aparentar normalidade,
enchendo nossas
grandes bolas de merda
de inveja e vaidade
escolhemos carros,
gravatas, paletós,
geladeira, mega TV,
cama miraculosa,
mas não podemos escolher
como viver
e segue a humanidade,
na monocórdia cantoria,
projetando medos nas
esfinges
das vitrines,
turbilhionando
altas esferas e granas e
tramoias
na espectativa de ter
mais,
para viver somente o
possível
script projetado
Lurette H.
só ligava para ela
nos feriados
seu nome era Lurette H. - nome fictício
meu pequeno parque de diversões
de descontração, risos,
camaradagem entre sexos e foda
às vezes a quantidade de porra
acumulada
subia ao cérebro
- precisava desopilar
e ligava para Lurette
"Pode vir, meu bem",
e eu desovava tudo em Lurette
só ligava,
e só,
não, não havia grana na jogada,
nosso sexo era, como dizer,
processual,
depois havia risadas,
a parte melhor
nos encontros,
ela foi se revelando,
e o que saiu da casca
foi uma mulher tremendamente solitária,
que morava num conjugado da Renoir,
viúva há sete anos, sem filhos
Lurette,
meu pequeno parque de diversões,
se ainda ria,
era porque não tinha mais o que de melhor fazer na vida
nos feriados
seu nome era Lurette H. - nome fictício
meu pequeno parque de diversões
de descontração, risos,
camaradagem entre sexos e foda
às vezes a quantidade de porra
acumulada
subia ao cérebro
- precisava desopilar
e ligava para Lurette
"Pode vir, meu bem",
e eu desovava tudo em Lurette
só ligava,
e só,
não, não havia grana na jogada,
nosso sexo era, como dizer,
processual,
depois havia risadas,
a parte melhor
nos encontros,
ela foi se revelando,
e o que saiu da casca
foi uma mulher tremendamente solitária,
que morava num conjugado da Renoir,
viúva há sete anos, sem filhos
Lurette,
meu pequeno parque de diversões,
se ainda ria,
era porque não tinha mais o que de melhor fazer na vida
A loucura que nos convence de uma maneira inexorável
Entrei no metrô. Sorte naquele dia. Um lugar vago. Sentei. Comecei a folhear o jornaleco que distribuem nas estações. Numa cadeira lateral, uma dona loura de meia idade. Eu estava nas páginas de esporte, conferindo os resultados. Então, do nada, o tique. O maldito tique que veio das profundezas de não sei onde. Na minha frente, um esgar da mão esquerda com um puxão, quase um tapa, também para a esquerda. A mão da loura roçou o jornal. "Porra, de novo não", pensei. Tinha comigo um trauma com uma cabeça num restaurante, uma cabeça de uma dona também, que agitava de cinco em cinco segundos, para o lado. Olhei. Havia visto o movimento da loura, enquanto mudava a página. Mais 30 segundos, o esgar e o repelão. Novamente o bater da mão no jornal. "Dona, por favor, que bosta é essa?". "O que?". "Essa merda enervante que você faz com a mão, tumultuando ainda mais esse mundo insano". "Não faço nada". "Como não? E esse tique dos infernos?". Imitei, sério. O povo que estava perto gostou. A velhinha desdentada do meu lado riu. "QUE TIQUE! NUNCA TIVE TIQUE ALGUM! JAMAIS! QUE É ISSO DE TIQUE?! VOCÊ SÓ PODE ESTAR DE BRINCADEIRA COM A MINHA CARA". "Tudo bem, dona. O mundo é que não se enquadra aos seus movimentos". Durante a conversa, haviam se passado os 30 segundos. O esgar da mão de pássaro veio forte desta vez e o repuxão arrancou o jornal de minhas mãos. Eu sabia que o troço viria, por isso havia levantado de propósito algumas páginas. "Tá vendo, dona... ESSE TIQUE! É dessa porra que eu estou falando...". "QUE TIQUE?! ALGUÉM AQUI VIU ALGUMA COISA? VOCÊ SÓ PODE ESTAR MALUCO!". "É, dona, de certo modo, todos nós estamos". Apontei para uma idosa que entrava e lhe passei o lugar. Na hora que a velhinha sentou eu abaixei e lhe disse, alto: "Olhe pra janela, vovó. Sempre pra janela. Jamais para frente. NUNCA! Ouviu bem, NUNCA!". Olhei, então, para a loura de meia idade, que se remoía. Dei tchau, ri e desci naquela parada. Esperaria uma nova composição.
Cavalos... ou o que vier de lambugem
Malcom tinha uns dentes separados. "Ei, Dusquene, tive um sonho doido, cara". "Que foi?", "Um páreo de bucetas!". Malcom riu seu sorriso de dentes grossos e separados. "Como é?" "Isso que cê ouviu. Um páreo de xoxotas. As bucetas largaram para ganhar o grande prêmio". "E qual era?" "Uns caralhos tesos na horizontal na linha de chegada. Já imaginou..." "Não, não imaginei". Malcom ria, feliz: "Algumas xoxotas tinham os lábios finos. Outras tinham uns grossos que nem dedo de alcatra, Duc. Demais não?". "É". "Umas eram louras, outras rapadas. Uma ruivas. Outras escuras e peludas como um Pé Grande". Malcom gostava realmente daquilo. "Sabe quem levou o páreo?" "Tá, diz, quero ouvir a merda toda". "Piriquitinha, uma azaronaça. Ganhei 350 mangos". Sai. Era demais até pra minha bebedeira. Malcom continuou na corrida, rindo, um vencedor.
Baratas, meu mundo delas não sai
As baratas do almoxarifado são legais. Eu me apeguei a algumas delas. Edgar é o cara das costas pretas, tem uma asa fraturada, a esquerda. É dobrada pra cima. Creio que ele a bateu no pouso, não sei. Buster é quase do tamanho de Edgar, mas é pálido como uma beluga. Buster tem classe, caminha pisando leve, como Fred Astaire, mas é velho de casa. Conheço ele a uma porrada de meses. Ele gosta de aparecer no meio da noite, um pouco depois de Edgar. Edgar geralmente fica entre a segunda e a terceira prateleiras. Buster não, sempre na quarta, juntamente com ela, a minha favorita. Molly é a menorzinha e se esconde realmente bem no final das caixas de papelão. Só lá pelas 22h, quando estou realmente sozinho, na vigília, que ela aparece, devagarinho. Põe a cabeça pra fora. "Oh, é você Molly, hoje trouxe uns farelos de biscoito de coco. Taí. Não sei se vai gostar. Buster não quis. Está de dieta. Mas é melhor que a velha mazeina". A coisa ia assim, eu e meus animais de estimação. Sempre disse pra Edgar ficar atento. "Pare de se aventurar na segunda, fique na terceira. Os caras podem te ver na caminhada". Não deu outra. "Porra, que merda é essa Dusquene? Aqui tá cheio de bicho". Não deu tempo pra nada. Buff descarregou toda a raiva de séculos em Edgar. Depois olhou pra mão, contendo Edgar pulverizado. "Bosta", disse. Limpou meu pobre amigo em seu macacão. "Bosta, não. Ele se chamava Edgar". Buff não entendeu. "A barata que cê matou, desgraçado", eu disse. Buff me olhou. Apontou o dedo pra mim. "Cê é doido cara, ou passa tempo demais aqui nesta caverna". Depois da tragédia, Buster e Molly regularam mais as saídas. Passei a colocar as refeições somente às 23h.
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