eu não tenho escolha
todo o dia me levanto, vou trabalhar
e dou de cara com uma multidão
que eu não queria ver
os rostos me deprimem
a sensação de inutilidade de suas vidas me deprime
a vaga lembrança neles de algo vago me deprime
até mesmo a suposta confiança que aparentam de querer prosseguir
caminho entre pessoas como mais um sacrificado,
fodido, malbaratado, estúpido ser das massas
penso: "bem, pelo menos, é sexta, não os verei por dois dias..."
não deixa de ser um alento, ainda com a possibilidade dos drinks no Salute a vida já não é tão ruim
terça-feira, 21 de abril de 2015
Em pêlo de hirto desconsolo
não há paixão,
só dever, o estar,
a certeza inadiável,
a pressão dos acontecimentos,
desmoronando da pilha cotidiana
enquanto escrevo,
minha mulher dorme,
todos dormem, para acordar sete, oito horas à frente,
na repetição do dia interminável
enquanto escrevo,
há a solidão boa, palpável,
o esquecimento silencioso,
dos afazeres
e o miado dos gatos, o santo
mio dos gatos nos telhados
- às vezes penso que eles são
os donos do pedaço, e são,
mas não, agora,
quando chove torrencialmente,
fodendo a paz dos
santos
só dever, o estar,
a certeza inadiável,
a pressão dos acontecimentos,
desmoronando da pilha cotidiana
enquanto escrevo,
minha mulher dorme,
todos dormem, para acordar sete, oito horas à frente,
na repetição do dia interminável
enquanto escrevo,
há a solidão boa, palpável,
o esquecimento silencioso,
dos afazeres
e o miado dos gatos, o santo
mio dos gatos nos telhados
- às vezes penso que eles são
os donos do pedaço, e são,
mas não, agora,
quando chove torrencialmente,
fodendo a paz dos
santos
segunda-feira, 20 de abril de 2015
AUTONOMIA
Um poema de Otto Dusquene
1
Marion Manton morreu depois de dois meses e meio,
de um câncer terminal e público. Morreu gritando, gemendo e
definhando no apartamento 208-A, da Danton Street.
Tinha 26 anos. Não teve AUTONOMIA para manter-se viva.
Buff Lindener morreu há menos de um mês,
de edema pulmonar, caído entre duas máquinas de lavar,
às três da tarde, no porão do edifício onde morava.
Idade: 57. Complicação derivada da falta de AUTONOMIA para permanecer vivo.
Dick Craigton faleceu após agonizar durante duas horas,
com dois tiros nas costas. Todos passavam por ele,
sem dar a mínima. Idade: 16. Causa mortis: ausência de AUTONOMIA.
Ruth Stein morreu engasgada com um pedaço de carne.
Sufocou aos 72 anos num restaurante da Limonae.
Havia quarenta pessoas no local. Ninguém notou o episódio.
Não teve AUTONOMIA para desobstruir a traqueia.
2
John Stanley tentou salvar sua filha,
envolvida em um acidente de carro,
quando voltava do trabalho.
Ele passou na via por acaso
e viu a filha presa nas ferragens.
Em desespero, tentou tirá-la do veículo.
Foi imediatamente preso pelos controladores de condutas.
Oito meses depois seu caso foi levado à Suprema Corte.
Foi condenado à prisão perpétua. Faleceu em 2034.
3
Hannah, sua filha, morreu uma hora após o acidente.
Não teve como sair do carro com uma perna e quatro costelas quebradas.
Pulmão perfurado, hemorragia interna.
Muito embora, é preciso destacar, os camareiros
estivessem de plantão a dois metros de onde estava,
esperando que ela fosse até eles, para encaminhá-la
a uma das UNIDADES DE SALVAMENTO,
as quais as pessoas têm direito uma única vez na vida.
4
Quem não tem condições de se safar por conta própria
morre não de doença, acidente, assalto.
Neste mundo todos morrem por não ter AUTONOMIA.
Não é insensibilidade, somente a nova ordem das coisas,
nascida naturalmente... roboticamente... inoxidavelmente
metodicamente incorporada ao dia a dia das pessoas.
5
No conjunto de edifícios cinzas da Área 159-B,
as vidraças balançam nos caixilhos,
com a ventania horizontal,
que já entortou as lâminas de dois dos quatro
outdoors colocados pelo governo,
bem diante dos blocos de apartamentos sem pilotis.
Neles está escrito, em letras garrafais, o mesmo aviso:
“É TERMINANTEMENTE PROIBIDO AJUDAR QUALQUER INDIVÍDUO. AUTONOMIA É REQUERIDA SEMPRE. EM TODAS AS SITUAÇÕES.”.
Logo abaixo, em letras menores, vermelhas, lê-se:
“Quem auxiliar um incapaz será sumariamente preso e julgado sob as leis de AUTONOMIA.”.
6
John Smith, morador do apartamento 227, da Torre C, da Área 159-B,
tentou sabotar essa diretriz, participou de uma rede clandestina de auxílio...
Foi torturado, imolado tão brutalmente
que logo revelou os nomes dos quatro outros integrantes da organização.
As cinco pessoas que, em razão das ações da rede, tiveram uma segunda chance de vida, foram assassinadas (respeitando as mesmas condições em que morreriam se não houvesse ocorrido qualquer intervenção externa).
“AUTONOMIA jamais, jamais deve ter compaixão. Lembre-se disso. É a seleção natural, em último caso o destino, que separa os fortes dos fracos.”.
Os dizeres acima estão espalhados por imensos cartazes. Em todo o país.
1
Marion Manton morreu depois de dois meses e meio,
de um câncer terminal e público. Morreu gritando, gemendo e
definhando no apartamento 208-A, da Danton Street.
Tinha 26 anos. Não teve AUTONOMIA para manter-se viva.
Buff Lindener morreu há menos de um mês,
de edema pulmonar, caído entre duas máquinas de lavar,
às três da tarde, no porão do edifício onde morava.
Idade: 57. Complicação derivada da falta de AUTONOMIA para permanecer vivo.
Dick Craigton faleceu após agonizar durante duas horas,
com dois tiros nas costas. Todos passavam por ele,
sem dar a mínima. Idade: 16. Causa mortis: ausência de AUTONOMIA.
Ruth Stein morreu engasgada com um pedaço de carne.
Sufocou aos 72 anos num restaurante da Limonae.
Havia quarenta pessoas no local. Ninguém notou o episódio.
Não teve AUTONOMIA para desobstruir a traqueia.
2
John Stanley tentou salvar sua filha,
envolvida em um acidente de carro,
quando voltava do trabalho.
Ele passou na via por acaso
e viu a filha presa nas ferragens.
Em desespero, tentou tirá-la do veículo.
Foi imediatamente preso pelos controladores de condutas.
Oito meses depois seu caso foi levado à Suprema Corte.
Foi condenado à prisão perpétua. Faleceu em 2034.
3
Hannah, sua filha, morreu uma hora após o acidente.
Não teve como sair do carro com uma perna e quatro costelas quebradas.
Pulmão perfurado, hemorragia interna.
Muito embora, é preciso destacar, os camareiros
estivessem de plantão a dois metros de onde estava,
esperando que ela fosse até eles, para encaminhá-la
a uma das UNIDADES DE SALVAMENTO,
as quais as pessoas têm direito uma única vez na vida.
4
Quem não tem condições de se safar por conta própria
morre não de doença, acidente, assalto.
Neste mundo todos morrem por não ter AUTONOMIA.
Não é insensibilidade, somente a nova ordem das coisas,
nascida naturalmente... roboticamente... inoxidavelmente
metodicamente incorporada ao dia a dia das pessoas.
5
No conjunto de edifícios cinzas da Área 159-B,
as vidraças balançam nos caixilhos,
com a ventania horizontal,
que já entortou as lâminas de dois dos quatro
outdoors colocados pelo governo,
bem diante dos blocos de apartamentos sem pilotis.
Neles está escrito, em letras garrafais, o mesmo aviso:
“É TERMINANTEMENTE PROIBIDO AJUDAR QUALQUER INDIVÍDUO. AUTONOMIA É REQUERIDA SEMPRE. EM TODAS AS SITUAÇÕES.”.
Logo abaixo, em letras menores, vermelhas, lê-se:
“Quem auxiliar um incapaz será sumariamente preso e julgado sob as leis de AUTONOMIA.”.
6
John Smith, morador do apartamento 227, da Torre C, da Área 159-B,
tentou sabotar essa diretriz, participou de uma rede clandestina de auxílio...
Foi torturado, imolado tão brutalmente
que logo revelou os nomes dos quatro outros integrantes da organização.
As cinco pessoas que, em razão das ações da rede, tiveram uma segunda chance de vida, foram assassinadas (respeitando as mesmas condições em que morreriam se não houvesse ocorrido qualquer intervenção externa).
“AUTONOMIA jamais, jamais deve ter compaixão. Lembre-se disso. É a seleção natural, em último caso o destino, que separa os fortes dos fracos.”.
Os dizeres acima estão espalhados por imensos cartazes. Em todo o país.
Um supermercado ao rés do chão
em algum lugar há um supermercado aberto
e sem ninguém,
sem sequer carros de supermercado,
sem carros no estacionamento,
só o sol batendo forte, belo,
luxuriante,
e no azul uma vertigem,
desarrazoado assomo de liberdade,
em tudo quanto há,
nenhum movimento mais,
as geladeiras demonstrativas repletas
de cervas geladas,
bestialmente geladas,
e eu, de garganta seca, no pó,
na merda patinada de meus dias
sobre a terra.
Ela
Seguirei vivendo
esses últimos 20 anos
não sei se escrevendo,
indo a supermercados,
mas certamente botando o vinho no carro,
vendo disco voador,
virando leitor de livros de economia,
o drama dusqueniano completado...
Até que venha ela,
ela, a esperada,
ela, a aguardada,
ela com seus lábios em vermelho
me pagando o boquete final.
esses últimos 20 anos
não sei se escrevendo,
indo a supermercados,
mas certamente botando o vinho no carro,
vendo disco voador,
virando leitor de livros de economia,
o drama dusqueniano completado...
Até que venha ela,
ela, a esperada,
ela, a aguardada,
ela com seus lábios em vermelho
me pagando o boquete final.
Das urgências da vida sem sol ou ternura
Eu preciso,
com urgência,
de calma, serenidade,
de uma cerveja à mão.
Eliminar esse excesso de seres humanos...
Que incomodam mais que sarna,
sem que nada disso soe
anátema...
É só o que preciso
numa véspera de feriado –
no dia do feriado –
na tortura da volta ao trabalho.
Um homem decente só exige
um pouco de sossego,
mirar o horizonte
sem ver a placa do
curso de direção
em três parcelas,
sem entrada,
sem ter nojo
de tudo.
O sujeito só necessita
de um pouco de verve,
de birita, da aposta mediana,
de sol e esquecimento,
para viver
com algum resto
de dignidade.
sexta-feira, 17 de abril de 2015
A grande fêmea, bucetuda
Somos menos que aquela estrela
Mas somos alguma coisa
Eu, bebendo esse vinho,
sobre a murada
E indo para...
Penso que, talvez,
devamos dar uma chance a nós mesmos
não devemos nos entregar,
passar o cheque em branco
ir pela escada quando temos o elevador
- mas milhões vão pela escada -
e isso é bom.
A humanidade vai pela escada, envolta em bruma
e desilusão,
você, que está com o peito dilacerado,
há sempre uma chance, camarada,
na próxima esquina
a grande mulher virá
tenha fé
e beba
um pouco mais
Mas somos alguma coisa
Eu, bebendo esse vinho,
sobre a murada
E indo para...
Penso que, talvez,
devamos dar uma chance a nós mesmos
não devemos nos entregar,
passar o cheque em branco
ir pela escada quando temos o elevador
- mas milhões vão pela escada -
e isso é bom.
A humanidade vai pela escada, envolta em bruma
e desilusão,
você, que está com o peito dilacerado,
há sempre uma chance, camarada,
na próxima esquina
a grande mulher virá
tenha fé
e beba
um pouco mais
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