segunda-feira, 5 de maio de 2014

As Coisas

sempre iremos, de alguma forma,
quebrando coisas
copos, garrafas, corações e mentes
é inevitável, é da vida

saberemos muito pouco ao final,
mas teremos uma certa sabedoria
da caminhada
de alguma forma...

é inevitável
que a grande festa termine
é inevitável que o drinque
acabe, e não encontremos mais nada
no fundo do copo
no lar
na galáxia

mas teremos feito uma caminhada útil
e necessária
para uns e outros
e sairemos, ao final de tudo,
com um leve cumprimento
- de nada, obrigado.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Novo novo e igual

Queria avançar no tempo 400 anos para ver como serão as coisas. 
Habitaremos colônias na Lua, em Marte, certamente...
Iremos a Alfa do Centauro... Voltaremos?

A cura do câncer virá...
A antecipação genética, com a escolha de quem poderá reproduzir ou não...
Eugenia, esse horror... horror...horror...
Todo o mal, todo o bem,
tudo o mais...

Ninguém ficará isento, todos serão envolvidos, atraídos.
Conduzidos, forçados?
Haverá democracia ainda?
Ocidente? Oriente?
Fé?

A certeza humana da continuidade da espécie, a todo o custo,
uma questão de sobrevivência, mesmo que muitos devam ser sacrificados.

You

Você,
que pensa que será grande daqui a alguns anos,
que pensa que realizará seu sonho sob água matinal,
que permanecerá sempre tentando,até o esgotamento,
que sobre derrotas nada falará, justificando-as todas,
que fará uma merda atrás da outra

Você,
que buscará no álcool qualquer coisa de humano, e ficará vencido,
que procurará qualquer coisa sob o solar da lua morta e nada encontrará,
que desmontará a maquete antes mesmo do primeiro tijolo cozido,
você, homem, você, você mesmo, que dormirá com os porcos, no trajeto,
e que clamará aos céus pelo aniquilamento

Você,
que imaginará ter um tesouro sob a pedra,
que vomitará bílis e desejos ao lado da gorda mesa,
que espantará pombos como bichos humilhantes,
e se servirá do último drinque no copo americano,
você, homem, você, você mesmo, que é da América,
nua, escura, úmida, calorenta, bela
como uma stripper

Você,
que perderá os culhões sob as fachadas luminosas dos supermercados,
que antecipará o pagamento da empregada por pena e asco e insinceridade,
que dormirá sob as estrelas em uma noite clara de vigília bêbada,
que deixou para trás todo o legado de 50, 60 e 70,
que esperará somente viver um pouco mais mais,
para que o urso ainda tente abocanhar o peixe,
ou algo, assim, idiota e totalmente humano,
assim é, homem, assim

Ontem, tarde, na rua mais próxima


"Beberei até a sua última gota, Dusquene".
"Espero que engasgue, sua rampeira".
"Pensava que ia ter uma boa vida, hein?".
"É. Realmente imaginava algo melhor para o meu lado".
"Cê não é melhor do que ninguém, Duc".
"Sei que não sou. Mas também não preciso ser igual a todos".
"Escrever uns poemas e textos não o tornam superior".
"Mas me salvam do ramerrão, conservam o meu nariz acima do mar de bosta".
"Você é engraçado. Saiba... NINGUÉM SE SALVARÁ!"
"Não procuro redenção alguma".
"Seu fim será igual ao dos outros camaradas".
"Mas deixarei uns troços escritos, meu ódio talvez".
"Você se acha especial, Dusquene. Muito especial..."
"Afinal, dona, cê não tem mais o que fazer?"
"E você? Que destino dá a sua vida miserável?"
"Bebo e escrevo e vice-versa".
"Sua novela nunca será publicada".
"O que eu posso fazer? Mas um editor já se interessou. Agora é aguardar".
"Conversaremos mais tarde. O cara lá de cima me bipou. Um atropelamento na Pomerode, 45. Amanhã estou de volta".
"Não venha. Me dê uma folga".
"Isso não existe para você, Dusquene. Não para você".

Mad Love

Ninguém é bom o bastante para você
Ninguém cospe um sonho tão grandioso
Ninguém é suficiente para amar você como uma perdida
Ninguém lê o seu horóscopo e faz revelações
Como vai ser seu dia a dia? E seu segredo desprezível...
Ninguém conhece ainda as palavras mágicas
Que farão você cair dessa nuvem
Para se transformar realmente numa mulher

Mas você, garota, vai sofrer muito
Se não for na minha mão, será na mão de outro
Você vai fazer tudo o que eu quiser (mas não serei seu dono...)
E vamos viver um amor bem vagabundo
Só para quebrar o gelo

Eu não tenho amigos, nem paradeiro
Não tenho um sonho, nenhum, nem durmo
Mas amo você como um cão danado, como um cão errante
Eu leio como ninguém seus desejos tão secretos
Eu já estou no seu dia a dia. Meio indefinido...
Você tem agora quem conhece as palavras mágicas
Que farão você cair dessa nuvem
Para se transformar realmente numa mulher

Mas você, garota, vai sofrer muito
Se não for na minha mão, será na mão de outro
Você vai fazer tudo o que eu quiser (mas não serei seu dono...)
E vamos viver um amor bem vagabundo
Só para quebrar o gelo

Alma que embola o grande falo

1
Você fez por merecer a mulher tem.

2
Um cachorro é sempre um cachorro. Uma pessoa eu não sei o que pode vir a ser.

3
Qualquer bebida é melhor que nada. Desde que tenha álcool.

4
"Você precisa de um psiquiatra, Dusquene",
"É. Eu, você e metade do planeta".
"Mas no seu caso é evidente".
"Não force, baby".

5
Muitas mulheres destróem seus homens. Fazem com que eles se transformem em amebas, em seres débeis, emasculados.

6
Casamento é a pior coisa que existe antes do divórcio.

7
Qualquer mulher falando é um ser em caça.

8
Quando uma mulher gosta de outra algo está errado.

9
Ler é mortal para qualquer escritor.

10
TV aberta é sinal de insanidade.

O inexplicável momento de nada dizer

A velha Mildred gostava de colocar uns vasos com plantas no parapeito da janela. Gillmore alertava Mildred.

"Qualquer hora um troço desses balança, cai e faz um estrago na cabeça de alguém. Se for comigo, as consequências serão graves...".

"Você está me ameaçando? Vou telefonar para a polícia".

"Dona, telefone para o escambau. Eu já lhe dei o aviso".

Um dia aconteceu. Um dos vasos com gerânios despencou e estatelou no piso da entrada, bem na hora que Gillmore saia pro trampo. O adubo negro do vaso cobriu as barras de sua calça creme e penetrou nos sapatos. Uma merda só. Gillmore olhou para cima e viu Mildred assustada, segurando um vaso que ameaçava cair.

"Eu lhe avisei", disse ele.

Gillmore abriu com força a porta do prédio de três andares, sem pilotis.

O que se ouviu depois foi o baque surdo de porta escancarada a pontapés, os gritos de Mildred e o barulho de vasos se quebrando no 279.

"Você é louco. Um homem insano aqui. Minhas azaleias, meus gerânios! Oh, meus pobres gerânios...".

Mas Gillmore continuava, firme, a destruir os jardins suspensos.