quinta-feira, 30 de junho de 2011

Ao povo de lugar nenhum, só, com um lamento

as pessoas são capazes de tudo
li que um sujeito espatifou uma poodle na cabeça da mulher
essa foi uma das notícias mais bizarras
da qual tomei conhecimento
logicamente, ela (a mulher) deve tê-lo irritado bastante,
e a pobre da cadela estava ali por perto...

ninguém sabe quando a fúria vai emergir do lodo
só vemos seus efeitos quando já é tarde demais
não falo de assassinatos, falo do ódio diário
que não chega a matar, mas causa um problema dos diabos
e sequelas também difíceis de esquecer

também não falo da fúria previsível do sujeito que chega em casa
e, bêbado, espanca a mulher e marca os filhos, para sempre
essa violência, com ajuda policial e da Justiça,
pode ser estancada

falo do ódio que as pessoas têm de si mesmas,
daquilo que fizeram de suas pobres vidas,
ódio que explode internamente no bar, na rua, no trabalho, no trânsito,
depois de ter mudado o homem num monte de merda,
num ser sem voz ou dignidade, por anos a fio,
inescapavelmente

Pocker

Duas da manhã. Dunway abriu lentamente a porta de casa. Um homem entrou. Ele apontou o local. E ficou aguardando na sala, durante meia hora. Depois de tudo terminado o homem deixou a casa. "Quites?". "Tudo certo".

Sondra acordou feliz. Olhou para o marido e disse: "Perdeu de novo? E não tinha como pagar... Mas dessa vez, posso lhe garantir, valeu a pena. Bela cravada, meu bem". Dun enxergou Sondra com um olhar assassino. Ela começou a cantarolar um hit dos anos 70.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Vaga para deficiente físico

um homem andou pelas calçadas da cidade, ninguém soube
um homem esteve presente nos principais acontecimentos, ninguém notou
um homem sentou em bares pustulentos, bebeu, berrou, e daí?
um homem trepou, mijou, cagou, e não era para ninguém ter visto mesmo
um homem balançou na mureta de um viaduto, burramente, alguns se espantaram
um homem relaxou, mas sofreu muito também, às vezes, quem viu
um homem trabalhou - e trabalha - sol a sol por 28 anos, foda-se
um homem leu os poucos autores que valiam a pena e se retirou para o nada
um homem bebeu todas as bebidas pensando não ser necessário tudo isso
um homem viu suicidas saltando de edifícios, se enforcando ou metendo uma bala no crânio
era eu este homem, era qualquer um, era você
ninguém nem aí

Leve como a luz solar em meio algo escuro, num cubículo

Gia olhava de cima.

Tinha a melhor bunda do departamento e ela sabia disso. Todos sabiam também que ela era ninfomaníaca, mas se controlava no trabalho.

Um dia não resistiu e encarou Jeffrey, o gerente careca do almoxarifado. Ela pegou ele ao cair da tarde, quando Jeffrey fazia uma conferência solitária de duas remessas de papel-manteiga que tinham acabado de chegar.

O troço parece que esquentou.

Uma remessa de papel-manteiga ficou imprestável com os esguichos de Gia e outros borrões estranhos. Jeffrey foi suspenso por uma semana. Ninguém sabe se pela foda, pois Gia também era caso do chefão, ou se pelos borrões. Talvez pelos dois.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Anticlímax em meio a sapatos brancos sobre a amurada

“Você quer me matar, Dusquene”.

”Só quero que você se acalme, Marion. A enfermeira já vem. Cadê a droga da enfermeira?”

“Eu vou sair dessa maca”.

“O caralho que vai. Espere”.

“O que é isso? Você me empurrou. Você realmente quer me matar”.

“Porra, fique quieta um pouco. Cadê a enfermeira? Alguém, que seja...”

“Gina ele quer me matar! Gina, não me deixe só com esse homem! Gina! Gina!”.

“São 2 e 40 da madrugada. Vai acordar todo o hospital...”

“Gina! Giiinnaaaa! Giiiiiiiinaaaaaaaa!”

Uma enfermeira entrou no quarto, afoita.

“Quer dizer... O chamado pelo aparelho vocês não atendem, mas é só começarem os berros e logo correm...”.

“Que tem ela?”.

“Está alucinando devido a uma infecção”.

“Huum... Acalme-se, OK. Está tudo bem”.

“Você chamou sua amante, Dusquene. Estão de conluio para me envenenar”.

Não aguentei.

“Confesso ser uma das opções sobre a mesa”.

Marion arregalou os olhos e sussurrou para a enfermeira:

“Não lhe disse, Gina, estão todos combinados”.

De alma partida mas com uma fé infinita

li no jornal que um cara bateu na mulher
com a primeira coisa que lhe veio à mão:
um poodle branco

Gillmore bateu forte duas vezes com Tiffany na cabeça de Sheylla
no segundo golpe a cadela morreu, o cérebro partiu
o cara foi preso por maus tratos a animal e agressão

Sheylla, com um enorme hematoma no olho direito,
perdoou Gillmore e enterrou Tiffany no quintal dos fundos
numa bela cerimônia, mármore perfeito

os vizinhos compareceram, todos

Um pouco a mais não é importante

"Você é uma merda como todo mundo, Dusquene". "Sei disso". "Seus escritos só falam do lado sujo". "Esse é o que prepondera". "Desista logo antes que contamine a humanidade". "Não há esse perigo". "Fale baixo comigo, Dusquene". (...) "Não sou um de seus leitores malditos". "Cê comeu bosta, amigo?". "Olhe como fala comigo". "Enfie o cu no toco, cara", finalizei. De repente, o sujeito voltou-se para a parede do bar e continuou. "Não fale assim comigo. Já disse, lhe meto um processo". Acabei meu drink e saí.