"toca a ponte", o velho berrava no meio da Rushmore.
"desce... não! toca a ponte", prosseguia, abrindo os braços.
"pare com esses gritos, miserável", diziam alguns transeuntes.
"toca a ponte, você também", o velho apontava.
eu passei direto, sem nada dizer.
sexta-feira, 15 de maio de 2015
O Cérbero para você, meu bem
qualquer
abandono fere,
mas há pessoas
que anseiam
o abandono
são pessoas com
autonomia,
ou, pelo menos, se dizem
mas que,
na verdade,
são dependentes de
sua solidão
e dor
não há nada
mais melancólico
do que esse
tipo de gente,
que nos pede
compaixão
de sua aparente
vulnerabilidade,
tornam a vida de todos
um inferno
emocional
atenção:
é chantagem e da grossa
abandono fere,
mas há pessoas
que anseiam
o abandono
são pessoas com
autonomia,
ou, pelo menos, se dizem
mas que,
na verdade,
são dependentes de
sua solidão
e dor
não há nada
mais melancólico
do que esse
tipo de gente,
que nos pede
compaixão
de sua aparente
vulnerabilidade,
tornam a vida de todos
um inferno
emocional
atenção:
é chantagem e da grossa
quinta-feira, 14 de maio de 2015
King
"sente estes calos..."
"eu não vou encostar nesses calos..."
"por que? tem nojo?"
olhei para as grossas mãos de Seymour.
"isso não são mãos. são bate-estacas. bigornas enferrujadas".
Seymour sorriu.
"estas mãos, Dusquene", levantou-as, "já fizeram o certo e o errado".
"acredito. mas agora estão um pouco gastas".
"é", Seymour observou-as mais de perto.
"qualquer hora despencam e você nem perceberá".
Seymour olhou-as mais próximo ainda.
"é, talvez precisem de um daqueles hidratantes..."
desta vez quem riu fui eu.
"é, por aí".
"eu não vou encostar nesses calos..."
"por que? tem nojo?"
olhei para as grossas mãos de Seymour.
"isso não são mãos. são bate-estacas. bigornas enferrujadas".
Seymour sorriu.
"estas mãos, Dusquene", levantou-as, "já fizeram o certo e o errado".
"acredito. mas agora estão um pouco gastas".
"é", Seymour observou-as mais de perto.
"qualquer hora despencam e você nem perceberá".
Seymour olhou-as mais próximo ainda.
"é, talvez precisem de um daqueles hidratantes..."
desta vez quem riu fui eu.
"é, por aí".
Aos leitores
Podem reproduzir à vontade os poemas e escritos do Otto Dusquene, postado neste blog, em seus blogs e páginas pessoais, se desejarem.
Somente peço que identifiquem o autor dos poemas e textos.
Otto
quarta-feira, 13 de maio de 2015
Ao escutá-las em leve torrente natural
ainda descobrirei
as poucas palavras
que podem ser ditas
às mulheres
que não as façam enlouquecer
e nos enlouquecer
talvez essas palavras
existam e
estejam
por aí
suspensas
nos postes,
nas calçadas,
nos bares, nas ruas,
nos bueiros e adegas,
em pátios de igrejas,
nas pontes suicidas,
nos poleiros dos papagaios,
nas camas de mil amantes
assassinos
enfim,
como poderei
sabê-las?
mas,
se essas palavras existirem,
serão, certamente, plenas
de misericórdia
e dor
O TEMPLO DA SUBLIME DOR E DO PERDÃO DE VALIKAALYA
Valikaalya encontrou um bom local de comércio e alugou duas lojas compridas e conjugadas. Era uma aposta de alto risco. Dois dias depois, com um púlpito de madeira e doze cadeiras, inaugurou O TEMPLO DA SUBLIME DOR E DO PERDÃO DE VALIKAALYA. Assim dizia a imensa placa na entrada. Os primeiros adeptos da seita (ou religião) começaram a aparecer no dia seguinte. Valikaalya advertia todos que O GRANDE ARQUITETO estava tremendamente aborrecido com a safadeza crescente na Terra. O GRANDE ARQUITETO decidira destruir o planeta. Porém, Valikaalya informou que poderia apaziguar O GRANDE ARQUITETO com oferendas, mas não com quaisquer oferendas. E neste diapasão a roleta girou. Em cinco meses, O TEMPLO DA SUBLIME DOR E DO PERDÃO estava abarrotado de fiéis. Duas lojas laterais, menores, foram também alugadas, tendo as paredes internas quebradas para aumentar o espaço para mais cadeiras.
A tesoureira da seita era Bagoradhavana, irmã de Valikaalya. Este agora só chegava ao templo de carrão, ladeado por dois seguranças negros. Todo esse movimento começou a chamar a atenção da Receita Federal, já que Valikaalya registrara O TEMPLO DA SUBLIME DOR E DO PERDÃO como comércio comum, especificamente um bar-boate. Os fiscais vieram um dia pela manhã. Confiscaram o livro caixa, apreenderam computadores e documentos e encontraram US$ 25 mil, em cash, no cofre na SALA DO SUMO-SACERDOTE VALIKAALYA. Ao saber do confisco e da apreensão, Valikaalya deixou escapar um “como só US$ 25 mil?...”. Depois, tudo foi esclarecido. Bagoradhavana havia escapado com US$ 450 mil para um paraíso fiscal e, de lá, para a Índia, onde estaria vivendo em concubinato com um dos seguranças do irmão, que teria levado a tira-colo.
Os fiéis continuaram chegando.
Notícia
li há pouco
que um velhinho
foi expulso
de um asilo
por esconder
uma puta
debaixo da cama
tem mais:
o sujeito
usava
o lucro
obtido com
a venda de álcool
no estabelecimento
para pagar
garotas de
programa
para os
amigos
a vida não é melhor que o poema?
o cara deveria ser condecorado...
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