sexta-feira, 15 de maio de 2015

Cena um

"toca a ponte", o velho berrava no meio da Rushmore.

"desce... não! toca a ponte", prosseguia, abrindo os braços.

"pare com esses gritos, miserável", diziam alguns transeuntes.

"toca a ponte, você também", o velho apontava.

eu passei direto, sem nada dizer.

O Cérbero para você, meu bem

qualquer
abandono fere,
mas há pessoas
que anseiam
o abandono

são pessoas com
autonomia,
ou, pelo menos, se dizem

mas que,
na verdade,
são dependentes de
sua solidão
e dor

não há nada
mais melancólico
do que esse
tipo de gente,
que nos pede
compaixão

de sua aparente
vulnerabilidade,
tornam a vida de todos
um inferno
emocional

atenção:
é chantagem e da grossa




quinta-feira, 14 de maio de 2015

King

"sente estes calos..."

"eu não vou encostar nesses calos..."

"por que? tem nojo?"

olhei para as grossas mãos de Seymour.

"isso não são mãos. são bate-estacas. bigornas enferrujadas".

Seymour sorriu.

"estas mãos, Dusquene", levantou-as, "já fizeram o certo e o errado".

"acredito. mas agora estão um pouco gastas".

"é", Seymour observou-as mais de perto.

"qualquer hora despencam e você nem perceberá".

Seymour olhou-as mais próximo ainda.

"é, talvez precisem de um daqueles hidratantes..."

desta vez quem riu fui eu.

"é, por aí".




Aos leitores

Podem reproduzir à vontade os poemas e escritos do Otto Dusquene, postado neste blog, em seus blogs e páginas pessoais, se desejarem.

Somente peço que identifiquem o autor dos poemas e textos.

Otto

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Ao escutá-las em leve torrente natural


ainda descobrirei
as poucas palavras
que podem ser ditas
às mulheres
que não as façam enlouquecer
e nos enlouquecer

talvez essas palavras
existam  e
estejam
por aí

suspensas
nos postes,
nas calçadas,
nos bares, nas ruas,
nos bueiros e adegas,
em pátios de igrejas,
nas pontes suicidas,
nos poleiros dos papagaios,
nas camas de mil amantes
assassinos

enfim,
como poderei
sabê-las?

mas,
se essas palavras existirem,
serão, certamente, plenas
de misericórdia
e dor

O TEMPLO DA SUBLIME DOR E DO PERDÃO DE VALIKAALYA


Valikaalya encontrou um bom local de comércio e alugou duas lojas compridas e conjugadas. Era uma aposta de alto risco. Dois dias depois, com um púlpito de madeira e doze cadeiras, inaugurou O TEMPLO DA SUBLIME DOR E DO PERDÃO DE VALIKAALYA. Assim dizia a imensa placa na entrada. Os primeiros adeptos da seita (ou religião) começaram a aparecer no dia seguinte. Valikaalya advertia todos que O GRANDE ARQUITETO estava tremendamente aborrecido com a safadeza crescente na Terra. O GRANDE ARQUITETO decidira destruir o planeta. Porém, Valikaalya informou que poderia apaziguar O GRANDE ARQUITETO com oferendas, mas não com quaisquer oferendas. E neste diapasão a roleta girou. Em cinco meses,  O TEMPLO DA SUBLIME DOR E DO PERDÃO estava abarrotado de fiéis. Duas lojas laterais, menores, foram também alugadas, tendo as paredes internas quebradas para aumentar o espaço para mais cadeiras.

A tesoureira da seita era Bagoradhavana, irmã de Valikaalya. Este agora só chegava ao templo de carrão, ladeado por dois seguranças negros. Todo esse movimento começou a chamar a atenção da Receita Federal, já que Valikaalya registrara O TEMPLO DA SUBLIME DOR E DO PERDÃO como comércio comum, especificamente um bar-boate. Os fiscais vieram um dia pela manhã. Confiscaram o livro caixa, apreenderam computadores e documentos e encontraram US$ 25 mil, em cash, no cofre na SALA DO SUMO-SACERDOTE VALIKAALYA.  Ao saber do confisco e da apreensão, Valikaalya deixou escapar um “como só US$ 25 mil?...”. Depois, tudo foi esclarecido. Bagoradhavana havia escapado com US$ 450 mil para um paraíso fiscal e, de lá, para a Índia, onde estaria vivendo em concubinato com um dos seguranças do irmão, que teria levado a tira-colo.

Os fiéis continuaram chegando.

Notícia


li há pouco
que um velhinho
foi expulso
de um asilo
por esconder
uma puta
debaixo da cama

tem mais:
o sujeito
usava
o lucro
obtido com
a venda de álcool
no estabelecimento
para pagar
garotas de
programa
para os
amigos

a vida não é melhor que o poema?

o cara deveria ser condecorado...