domingo, 5 de maio de 2013
De homens e apostas
As apostas de Ellfroy sempre davam em nada. No jogo de números havia uma evidente separação entre a Sorte e ele. Um muro armado entre eles, inexpugnável, feito de concreto, um muro perene, eterno. Ellfroy sabia disso e, mesmo assim, jogava seus níqueis em esperanças de antemão perdidas. Talvez fosse um idiota, um viciado incorrigível, um doido apenas. Não importa. O que vale registrar são suas derrotas constantes, implacáveis como um murro de boxer. E ele sabia que iria assim até o fim dos tempos, até a morte do jogo ou da própria morte, ou fosse lá que o viesse primeiro. Aquilo era maior que ele, era maior que seus músculos em contrário, seus passos em contrário, sua negação; algo que sempre o levava à banca, aos números, à perdição. Depois da derrota, da pule amassada, jogada na rua, a raiva, a dor, a angústia, o remorso, tudo num turbilhão, vindo como dose amarga na garganta seca como pó. “Um dia vai dar... Um dia os números caem, precisos... E eu, então,...”. Ficou nisso, indo para o velho cubículo, para os braços de Eleanor.
Uma rodada de uísque,cartas e pragas
"Ninguém morre às sextas-feiras. É um dia ruim para morrer".
"É, eu sei. Mas a esposa de Fred morreu e ele não virá para o carteado".
Dougall resmungou um pouco, se acomodando melhor na cadeira. Prazze ficou puto.
"Acabou com o nosso jogo, porra. Sexta-feira realmente não é dia de entrar no saco".
"É , mas temos que dar os pêsames a Fred".
"Como a mulher morreu?"
"Soube faz dez minutos. Foi assassinada pelo amante".
"Como é? Fred quem lhe disse?"
"Não. Um conhecido. Ela transava com um corretor de seguros há dois anos sem Fred saber".
"E Fred soube?"
"Soube e perdoou a mulher. Aí ela informou ao corretor que não iria mais foder com ele. Trepavam todas as sextas à tardinha, justamente quando Fred vinha pro carteado. Ele sempre confiou cegamente em Irene".
"E daí?", perguntou Prazze a Rufus.
"O amante não se conformou e peineirou ela. Cinco tiros, duas horas atrás. Disse que queria dar a última nela como despedida e peineirou ela num motel da 7ª".
"É, mas isso não é motivo para Fred faltar ao carteado. Porra, essa noite é sagrada, merda!", disse Prazze, resumindo o que todos, na verdade, estavam sentindo.
"Quer saber? Quem é corno que espere. A mulher já está morta mesmo. Vou ligar para o Vicent para ver se ele vem substituir o Fred".
"É. Ótima ideia", disse Dougall.
quinta-feira, 2 de maio de 2013
Na vaga entre rodas passadas no meio-fio
1.
Espere e verá.
2,
Qualquer forma de jogo é um assassinato mental.
3.
Escrever é nada, absolutamente nada.
4.
Saiba esperar a espreguiçadeira. Quem sabe ela vem.
5.
A certeza é a coisa mais incerta que existe.
6.
O óbvio é intolerável.
7.
Preconceito é a maior estupidez do ser humano. Temos que destruir nossos preconceitos, um a um. Preconceito leva a assassinato.
8.
Uma bebida lenta, calma, é melhor que um porre rápido.
9.
Quem ama, retruca.
10.
Viver, quem sabe?
Espere e verá.
2,
Qualquer forma de jogo é um assassinato mental.
3.
Escrever é nada, absolutamente nada.
4.
Saiba esperar a espreguiçadeira. Quem sabe ela vem.
5.
A certeza é a coisa mais incerta que existe.
6.
O óbvio é intolerável.
7.
Preconceito é a maior estupidez do ser humano. Temos que destruir nossos preconceitos, um a um. Preconceito leva a assassinato.
8.
Uma bebida lenta, calma, é melhor que um porre rápido.
9.
Quem ama, retruca.
10.
Viver, quem sabe?
Tristes dias aqueles de maio
Eu separava as planilhas no banco. Agrupava os requerimentos de pequenos empréstimos de acordo com capacidade de pagamento do solicitante. Ou seja, se o sujeito informava uma renda razoável, mais chances ele tinha de conseguir o dinheiro. Era uma merda, porque havia aqueles que nada tinham a oferecer.
Um dia uma velha entrou com dificuldade no banco. Sentou na minha frente. Disse que precisava de um dinheiro para levar o marido ao oculista e comprar uns óculos novos para ele. Havia suspeita de glaucoma.
Pedi a ela algumas informações. Renda não havia. Infelizmente, informei à mulher que o empréstimo não poderia ser concedido. Seus olhos se encheram e as lágrimas começaram a descer. Seus lábios tremiam. "O que eu vou fazer agora, meu filho?". Eu não sabia o que lhe dizer. Eu era estagiário sênior naquela época e não ganhava nem para substituir meus sapatos velhos.
Por fim, não aguentei e menti no requerimento. Coloquei uma renda que achava que seria suficiente para a aprovação do empréstimo pelo gerente. Pedi que ela assinasse uma série de recibos, que bati rapidamente, para que comprovasse aquela renda. Pedi que telefonasse dentro de três dias para ver se o emprestimo havia sido aprovado. Era uma tentativa pelo menos.
Depois de tudo, a velha olhou para mim. Sorriu. Nada disse. Apenas contorceu seu lenço e se foi.
Era uma esperança. Uma esperança apenas, mas nada.
Na lâmina
"Eu tenho 300 milhões de espermatozóides por milímetro cúbico". "E daí, Foster?". "Eu posso colonizar o mundo: EU SOU O PATRIARCA". "O caralho que é. Só na Ásia são 1,3 bilhão de chinas". "Mas eu tenho 300 milhões... O doutor falou que eu sou uma potência viva". "Foster, há quanto tempo você não trepa?". "Há dois meses". "Só fumando esses daí, né?". "É". "Brocha, né?". "É". "Então, vá ali, bata uma e libere os 300 milhões, senão saem pelos olhos".
Febre
A fauna que rodeia o jogo de números é gente dura, sem humanidade. Só está ali pela grana. Quer que todos se fodam. Tudo bem: eu também quero. São seres de cara fechada, que repelem qualquer ato de simpatia. São seres enclausurados, fechados em seu mundo obscuro. São seres imprestáveis, corrompidos. Que não ajudam em nada. É uma fauna realmente medonha. Tomada pelo vício. E eu me pareço com eles... Não. Acho que não, ainda. Ainda consigo controlar a ansiedade. Tenho meus esquemas, perco uns, ganho outros, e isso me salva.
O que nós temos em comum com os outros
Fellow morreu batalhando em cima de Gina, que tinha 150 quilos e gostava de frango frito e linguiças defumadas. Morreu como se estivesse num colchão d´água quente. Um ataque cardíaco fulminante, enquanto tentava satisfazer (COMO!) Gina Upergatte. "Vai, vai, meu amorzinho, mete... Não é aí, aí é minha virilha, mais pro meio... Aí também não". Fellow resfolegava, buscando alcançar a cona, que se escondia no fundo, bem no fundo daquelas carnes. "Como será que ela mija? Por onde sai, meu Deus...", pensou o homem, que lutava uma luta inglória na origem, jamais vencida. Por fim, no embate, o homem tomou fôlego, tentou uma última estocada, mais violenta. A cara ficou roxa, num esgar terrível, e ele desabou sobre a manta de carnes. "Que foi, benzinho? Cansou foi? Trabalha mais na sua Gininha, seu preguiçoso...". E Gina abraçou carinhosamente Fellow morto.
Assinar:
Postagens (Atom)