domingo, 12 de agosto de 2012

Meu elo com o infinito de ser ninguém

1
É preciso ter paixão ao escrever. Mas repulsa pela humanidade.

2
Quando vejo uma mulher cuidando de criancinhas, brocho.

3
Morrer não é nada diante do que passamos do nascimento até subirmos no trem, de volta.

4
Certamente ninguém me falou que seria assim. Se falasse, eu não viria.

5
Certas mulheres não são para certos homens.

6
Quem ama, melhora. Ou fica na mesma.

7
Foder é uma confissão de dependência, quando se ama.

8
Cachorro pode cheirar a bunda do outro, mas ninguém cheira a minha.

9
Para se manter fiel só saindo com outras mulheres.

10
Tristeza em demasia sempre me dá vontade de rir.

Light

Mimi e Duffy, duas beagles, cagavam o apartamento todo. Dorothy chapinhava num vale de urina e merda de cachorro e adorava. "Minhas queridinhas, vamos descer? Vamos Duffy... Mimi, cadê você?". E as bostas e as piscinas de mijo pelo corredor.

Sempre considerei cachorro em apartamento a coisa mais imunda da terra. E, depois da cena que vi, confirmei a tese.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A outra face de lugar algum

1.
Só descobrimos o que somos quando os pais envelhecem.

2.
Ninguém é decente, não, não mesmo.

3,
A melhor mulher do mundo, para o idiota, ainda está por vir.

4.
A maioria das mulheres são o que são. Somente algumas, muito poucas, iluminam as calçadas.

5.
"Depressão é pior que chute no saco, Dusquene".
"Tá bom. Chute as bolas da depressão pra ver o que ela acha".

6.
Peidar é um ato de espírito.

7.
Viver é complicado. Mas nem tanto.

8.
Beber é confessional.

9.
Foder também é.

10.
Não é?



segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Tattoo

Um miniconto do Otto Dusquene


Misty começou com uma tatuagem pequena, em forma de uma pequena buceta, no lado direito do pescoço. Na verdade uma daquelas flores que parece uma racha. Achou legal, fez uns ramos do pé da flor até o meio pescoço.

Ficou realmente legal. Mas estranho. Os pais se horrorizaram. Os amigos nem tanto. Acharam bacana o troço. Os ramos da buceta do pescoço pareciam nascer dos peitos de Misty.

Ela resolveu, então, fazer da flor única um bucetal, estendendo o jardim por toda a face direita. A mãe desmaiou. O pai a expulsou de casa. O namorado, que antes apoiara a merda toda, não aguentou o exotismo e deixou Misty com o seu roseiral de tattoo.
O tempo passou. Ela foi ficando cada vez mais esquiva. Passou a andar com pessoas cada vez mais esquivas também.
E, meses depois, ao acordar de uma bebedeira, Misty olhou-se no espelho partido do banheiro de um sujeito qualquer, a quem dera por não ter o que fazer na noite anterior e porque precisava de um lugar melhor para dormir. O que viu não foi bem o que queria. Aliás, não viu nada daquilo que queria.
Queria ver seu rosto antigo. Clamava pelo seu rosto de dez meses atrás. Sem adesivos. Sem carimbos. Sem flores-bucetas. Sem ramos, sem roseiral, sem nada. E começou a chorar convulsivamente, a se desesperar, a morrer por dentro. O que fizera foi um crime contra si, sua real identidade. O seu verdadeiro rosto, nunca mais.
Três dias depois estava morta. Cortara o ramalhete pelo talo.



domingo, 5 de agosto de 2012

Uma certeza imediata

a maioria não sabe porque está por aqui
não mesmo
milhões andam a esmo
falam, pensam que pensam,
mas não enganam ninguém
estão irremediavelmente perdidos

é realmente algo que mete medo,
milhões e milhões
imaginando merda em cima de merda,
e, o pior, fazendo merda em cima de merda
até a consumação dos tempos

deveriam simplesmente quentar ao sol, como as iguanas de Galápagos
e dormir seus sonhos inúteis e imprecisos

Sondra Coxmoney

Eu via Sondra Coxmoney levantar a bunda da cadeira e algo em mim se erguia também. Aquela mulher era um assombro, o ideal de qualquer homem. E estava ali, à mão. Eu adorava suas saias justas, seus peitos, suas pernas, tudo nela era SEXO, do mais alto nível, se é que isso existe.

"Sondra, você me mata um dia desses...", eu brincava e piscava.

Ela ria. Eu também. E assim ia.

Até que um dia eu não aguentei mais.

"Que tal uma escapada na hora do almoço".

"Não posso, Otto, já tenho compromisso".

"Fica para outra vez".

"É, quem sabe?".

Ela encheu a garrafa no bebedouro, sorriu e saiu rebolando sua anca de égua. Eu fiquei ali, vendo aquilo, parado, com a vara querendo romper a cueca.

Deu a hora do almoço. Eu sai. Segui pela galeria até o restaurante a quilo mais próximo. Dez metros à minha frente vi Sondra andando, presa na cintura de uma loura. Pareciam se divertir bastante.

É, Dusquene, não se pode ter tudo na vida, nem Sondra.

No more, Blackbird

nem sempre vou bem comigo mesmogeralmente isso acontece a maior parte do dia
e quando não tem qualquer bar por perto
a coisa fica realmente tensa

vejo tanta gente medíocre passeando com os seus carrões
gente que nunca leu Bukowski, Fante, Kerouac, Corso
gente de grandes bundas gordas arrotando o último
benefício ganho
gente podre
em si
gente

nem sempre acontece de eu querer sair à rua
- isso sempre ocorre, geralmente quando acordo
mas há a obrigação do trabalho insosso,
envolto no dia abrasivo, solar

meus pés doem,
meus ossos doem,
o estômago, os rins, o pâncreas,
as articulações cansadas do mesmo moto continuum
de 27 anos

tudo somado hoje
não dá sequer uma sombra de homem,
que se mescla a pessoas satisfeitíssimas
com suas novas aquisições e empregos fáceis,
igual entre os parvos