sexta-feira, 16 de março de 2012

Ao longe em indormida e momentânea estante

1
O pior não é viver. A demência é aguentar pessoas por perto.

2
Um homem decente não deixa de beber seu drinque.

3
Sempre há, no final da linha, no último minuto da última hora alguém que pode foder seu dia.

4
Noventa por cento das coisas que temos são desnecessárias. Uísque não. Uísque é urgência ambiental.

5
Sem compaixão não há humanidade. Porém, 90% dos que compõem a humanidade são insensíveis, cruéis.

6
Se eu faço parte disso, quero o meu quinhão. E AGORA!

7
No mundo não basta ser O CARA. É preciso assassinar os outros caras para ganhar um lugar ao sol.

8
Viver é uma benção... Diga isso para o gari.

9
O dia em que você, Dusquene, escrever literatura, você estará morto. É melhor que tenha as mãos amputadas.

10
Fora isso. É isso.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Intermitente enquanto o garçom varre a rua

ontem faltou a chave
e fiquei no bar até meia-noite e meia e verifiquei:
não há mais pessoas interessantes, todas se foram,
restaram sombras e a pequenez de homens mínimos,
uma geração inteira se foi, para nunca mais

desapareceram a verve,
a sagacidade, a ironia, o fair-play, a música,
só as moscas rodeiam, agora, minha mesa vadia,
e eu estou cheio disso, de tanta gente comum,
no termo mais pejorativo da palavra,
gente que é merda
merda pura

por isso, estou bebendo mais em casa,
compro meia dúzia de latas de cerveja
e me divirto comigo mesmo
e assim vou - tlank, mais uma que desce -
na paz

só ontem foi diferente
por causa do caralho do esquecimento da maldita chave

quarta-feira, 14 de março de 2012

Um cão que ladra ao meio-dia no infortúnio de nós mesmos

os indivíduos estão desmoronando
nas ruas e avenidas, nos apartamentos, nas cidades
e não há psiquiatras para tantos
nem para um milésimo dos que adoecem,
que enlouquecem com a cretinice das pessoas,
que viram verdadeiras diarreias humanas,
que levam um girassol morto no peito,
morto, morto, morto
como um Deus
pagão

e
o que impressiona é que muitos acreditam
que nada, absolutamente nada, pode ser feito
nem o governo se responsabiliza, nem eu, nem você, nem ninguém
e a massa disforme avança, forçando os meios de comunicação
a mencionar a sua existência, a monstruosidade toda,
o sanatório a céu aberto em que vivemos
relativamente nervosos numa tranquilidade aparente

segunda-feira, 12 de março de 2012

A loucura que nos convence de uma maneira inexorável

Entrei no metrô. Sorte naquele dia. Um lugar vago. Sentei. Comecei a folhear o jornaleco que distribuem nas estações. Numa cadeira lateral, uma dona loura de meia idade. Eu estava nas páginas de esporte, conferindo os resultados. Então, do nada, o tique. O maldito tique que veio das profundezas de não sei onde. Na minha frente, um esgar da mão esquerda com um puxão, quase um tapa, também para a esquerda. A mão da loura roçou o jornal. "Porra, de novo não", pensei. Tinha comigo um trauma com uma cabeça num restaurante, uma cabeça de uma dona também, que agitava de cinco em cinco segundos, para o lado. Olhei. Havia visto o movimento da loura, enquanto mudava a página. Mais 30 segundos, o esgar e o repelão. Novamente o bater da mão no jornal. "Dona, por favor, que bosta é essa?". "O que?". "Essa merda enervante que você faz com a mão, tumultuando ainda mais esse mundo insano". "Não faço nada". "Como não? E esse tique dos infernos?". Imitei, sério. O povo que estava perto gostou. A velhinha desdentada do meu lado riu. "QUE TIQUE! NUNCA TIVE TIQUE ALGUM! JAMAIS! QUE É ISSO DE TIQUE?! VOCÊ SÓ PODE ESTAR DE BRINCADEIRA COM A MINHA CARA". "Tudo bem, dona. O mundo é que não se enquadra aos seus movimentos". Durante a conversa, haviam se passado os 30 segundos. O esgar da mão de pássaro veio forte desta vez e o repuxão arrancou o jornal de minhas mãos. Eu sabia que o troço viria, por isso havia levantado de propósito algumas páginas. "Tá vendo, dona... ESSE TIQUE! É dessa porra que eu estou falando...". "QUE TIQUE?! ALGUÉM AQUI VIU ALGUMA COISA? VOCÊ SÓ PODE ESTAR MALUCO!". "É, dona, de certo modo, todos nós estamos". Apontei para uma idosa que entrava e lhe passei o lugar. Na hora que a velhinha sentou eu abaixei e lhe disse, alto: "Olhe pra janela, vovó. Sempre pra janela. Jamais para frente. NUNCA! Ouviu bem, NUNCA!". Olhei, então, para a loura de meia idade, que se remoía. Dei tchau, ri e desci naquela parada. Esperaria uma nova composição.

Meio de identificação melhor que digital

os fundilhos das calças dizem muito do que as pessoas são
fundilhos volumosos indicam pessoas comunicativas ou carentes
os murchos pertencem àquelas que se enquadram na classe dos roedores
traseiros nem gordos nem magros são de pessoas aparentemente normais
- mas nunca se pode confiar inteiramente, jamais
os fundos de pessoas religiosas e católicas são gordos e cagam bem
os dos protestantes também são gordos e endinheirados,
mas na frente, nos bolsos

quer conhecer uma pessoa na alma:
observe com atenção os fundos de suas calças,
como os vincos se formam nas bandas enquanto caminha
- sei o que posso esperar dos indivíduos quando os vejo por trás...
por exemplo, fundos de chefes não trazem marcas,
ou seja, mesmo pelo cu não dá pra imaginar o que seu dono está pensando:
se está querendo lhe foder logo ali, na passagem

é um bom caminho para a compreensão da Humanidade, amigo, um bom caminho...

domingo, 11 de março de 2012

...

"Greta das tetas de búfala".

"Não fale isso comigo, Duc. Cê sabe que eu não gosto".

"Veste aquele vestido lilás, Greta. Comprei só pra você".

Humm...

"Desfila pra mim. Do quarto até aqui, na sala".

Huuummmm...

"Isso, agora senta na verga, Greta".

Ughh.

"Greta das tetas de búfala".

"Tá durão, Duc. Isso, me fode. Fode a sua Gretinha. E não me chame disso, não".

"Búfala..."

Em meio ao que tudo posso nesta miserável vida

eu não preciso de muitas coisas:
dessa quantidade enorme de seres humanos
de lanchonetes, shopping centers,
da hipocrisia humana, da aberração humana,
de fé ou noticiário esportivo

detesto jornais
e revistas especializadas
gosto de beber antes, durante e depois
acredito que o planeta vai de mal a pior até que me provem o contrário
- por enquanto, continuo vendo a merda descendo pelo cano
dias ensolarados e secos são particularmente indigestos
quando a ressaca é brava - e, geralmente, é na minha idade

detesto também notícias de ganhadores de loterias
ou de qualquer prêmio - podem ser pessoas sem fibra,
que farão coisas elementares com a grana

já essa notícia da explosão solar é interessante,
forma auroras boreais, anima a vida, aquece o sangue,
faz com que tenhamos dúvida sobre a permanência da espécie nesta terra,
e isso é sempre algo salutar - a incerteza, esperar o caos em tudo