quarta-feira, 14 de março de 2012

Um cão que ladra ao meio-dia no infortúnio de nós mesmos

os indivíduos estão desmoronando
nas ruas e avenidas, nos apartamentos, nas cidades
e não há psiquiatras para tantos
nem para um milésimo dos que adoecem,
que enlouquecem com a cretinice das pessoas,
que viram verdadeiras diarreias humanas,
que levam um girassol morto no peito,
morto, morto, morto
como um Deus
pagão

e
o que impressiona é que muitos acreditam
que nada, absolutamente nada, pode ser feito
nem o governo se responsabiliza, nem eu, nem você, nem ninguém
e a massa disforme avança, forçando os meios de comunicação
a mencionar a sua existência, a monstruosidade toda,
o sanatório a céu aberto em que vivemos
relativamente nervosos numa tranquilidade aparente

segunda-feira, 12 de março de 2012

A loucura que nos convence de uma maneira inexorável

Entrei no metrô. Sorte naquele dia. Um lugar vago. Sentei. Comecei a folhear o jornaleco que distribuem nas estações. Numa cadeira lateral, uma dona loura de meia idade. Eu estava nas páginas de esporte, conferindo os resultados. Então, do nada, o tique. O maldito tique que veio das profundezas de não sei onde. Na minha frente, um esgar da mão esquerda com um puxão, quase um tapa, também para a esquerda. A mão da loura roçou o jornal. "Porra, de novo não", pensei. Tinha comigo um trauma com uma cabeça num restaurante, uma cabeça de uma dona também, que agitava de cinco em cinco segundos, para o lado. Olhei. Havia visto o movimento da loura, enquanto mudava a página. Mais 30 segundos, o esgar e o repelão. Novamente o bater da mão no jornal. "Dona, por favor, que bosta é essa?". "O que?". "Essa merda enervante que você faz com a mão, tumultuando ainda mais esse mundo insano". "Não faço nada". "Como não? E esse tique dos infernos?". Imitei, sério. O povo que estava perto gostou. A velhinha desdentada do meu lado riu. "QUE TIQUE! NUNCA TIVE TIQUE ALGUM! JAMAIS! QUE É ISSO DE TIQUE?! VOCÊ SÓ PODE ESTAR DE BRINCADEIRA COM A MINHA CARA". "Tudo bem, dona. O mundo é que não se enquadra aos seus movimentos". Durante a conversa, haviam se passado os 30 segundos. O esgar da mão de pássaro veio forte desta vez e o repuxão arrancou o jornal de minhas mãos. Eu sabia que o troço viria, por isso havia levantado de propósito algumas páginas. "Tá vendo, dona... ESSE TIQUE! É dessa porra que eu estou falando...". "QUE TIQUE?! ALGUÉM AQUI VIU ALGUMA COISA? VOCÊ SÓ PODE ESTAR MALUCO!". "É, dona, de certo modo, todos nós estamos". Apontei para uma idosa que entrava e lhe passei o lugar. Na hora que a velhinha sentou eu abaixei e lhe disse, alto: "Olhe pra janela, vovó. Sempre pra janela. Jamais para frente. NUNCA! Ouviu bem, NUNCA!". Olhei, então, para a loura de meia idade, que se remoía. Dei tchau, ri e desci naquela parada. Esperaria uma nova composição.

Meio de identificação melhor que digital

os fundilhos das calças dizem muito do que as pessoas são
fundilhos volumosos indicam pessoas comunicativas ou carentes
os murchos pertencem àquelas que se enquadram na classe dos roedores
traseiros nem gordos nem magros são de pessoas aparentemente normais
- mas nunca se pode confiar inteiramente, jamais
os fundos de pessoas religiosas e católicas são gordos e cagam bem
os dos protestantes também são gordos e endinheirados,
mas na frente, nos bolsos

quer conhecer uma pessoa na alma:
observe com atenção os fundos de suas calças,
como os vincos se formam nas bandas enquanto caminha
- sei o que posso esperar dos indivíduos quando os vejo por trás...
por exemplo, fundos de chefes não trazem marcas,
ou seja, mesmo pelo cu não dá pra imaginar o que seu dono está pensando:
se está querendo lhe foder logo ali, na passagem

é um bom caminho para a compreensão da Humanidade, amigo, um bom caminho...

domingo, 11 de março de 2012

...

"Greta das tetas de búfala".

"Não fale isso comigo, Duc. Cê sabe que eu não gosto".

"Veste aquele vestido lilás, Greta. Comprei só pra você".

Humm...

"Desfila pra mim. Do quarto até aqui, na sala".

Huuummmm...

"Isso, agora senta na verga, Greta".

Ughh.

"Greta das tetas de búfala".

"Tá durão, Duc. Isso, me fode. Fode a sua Gretinha. E não me chame disso, não".

"Búfala..."

Em meio ao que tudo posso nesta miserável vida

eu não preciso de muitas coisas:
dessa quantidade enorme de seres humanos
de lanchonetes, shopping centers,
da hipocrisia humana, da aberração humana,
de fé ou noticiário esportivo

detesto jornais
e revistas especializadas
gosto de beber antes, durante e depois
acredito que o planeta vai de mal a pior até que me provem o contrário
- por enquanto, continuo vendo a merda descendo pelo cano
dias ensolarados e secos são particularmente indigestos
quando a ressaca é brava - e, geralmente, é na minha idade

detesto também notícias de ganhadores de loterias
ou de qualquer prêmio - podem ser pessoas sem fibra,
que farão coisas elementares com a grana

já essa notícia da explosão solar é interessante,
forma auroras boreais, anima a vida, aquece o sangue,
faz com que tenhamos dúvida sobre a permanência da espécie nesta terra,
e isso é sempre algo salutar - a incerteza, esperar o caos em tudo

sexta-feira, 9 de março de 2012

Lucy

os copos hoje estarão cheios e as mulheres mais úteis
o sexo mais ágil nos becos, galerias, nos postos de gasolina,
em cada greta do resto da cidade,
em cada cama uma possibilidade,
Lucy

nesta noite,
os homens estarão com suas carteiras mais dispostas,
as mulheres com as pernas mais abertas
e minha gala morrerá
no fundo de você,
Lucy,

Lucy, Lucy, Lucy,
sem fantasias, sem diamantes,
só sexo puro,
só você,
Lucy,
nua, nua, nua
basta

...

a maioria das pessoas está repleta de desejos mortos,
moribundos, esfaqueados, afogados, assassinados no curso da vida
deixamos para trás sonhos destroçados, apostas perdidas,
que mal identificamos como nossas,
como se jamais tivessem sido feitas
em nossas mentes tão objetivas,
entorpecidas pelo medo
de viver

arrotamos vaidades, pensamentos loucos,
mas terminamos como o comum dos homens,
bebendo lado a lado com pessoas que nada dizem,
nem melhores nem piores, muitos iguais a você,
homem apenas, comum demais,
até o esgotamento