terça-feira, 12 de maio de 2015

De gentileza e outros ódios

sem os atropelos
da vida
o que seria eu?
que
experiências
amealharia?
se nascesse abonado?
para que?
não,
prefiro a azáfama
diária,
o turbilhão
das obviedades,
a luta
por um lugar
ao sol,
mas que o sol demore
a chegar,
aliás,
que o sol
vá para o caralho,
foda-se
o sol,
com suas
sombras,
pombos e pardais,
domingos,
bonomia,
e satisfação,
necessito
da
aprendizagem
das ruas,
dos fundilhos
empapados
de suor,
da camisa
amarrotada,
do paletó puído,
do cheiro acre
da cerveja,
dos bares,
senão,
o que seria
de mim?






Uma tarde feliz entre pombos e gatos

Quando entrei na casa, dei de cara com o pombal, numa das laterais. Na verdade, uma tela de galinheiro, armada entre pilotis de ferro, com uma dúzia de pombos atrás, fechando toda a varanda de Buba PopCorn.

"Mas o que é isso?", cheguei perto e levantei o braço para apontar para o troço.

"NÂO TOQUE NA TELA! ELES SENTEM O CHEIRO", disse Buba.

Era uma negra gorda, de 100 quilos.

"Eu não ia...Só queria saber por que?".

"Gosto de pombos".

"Eu de gatos".

"Hummm. Não fui com a sua estampa, garoto".

Olhei melhor. Havia alguns pombos dominantes, que corriam, espantavam os outros. Havia um cinza marrom. Perguntei se era o big boss.

"Esse é o Poncho. Aquela é a Suma. Esse branco é o Franco, só vive no chão. Asa esquerda quebrada. Esses maníacos do parque. Pode ter sido também um gato", e Buba me olhou desconfiada.

De repente, falou.

"Agora, franguinho, vamos transar".

"O que? Não, Buba. Vicky está para chegar. Ela é sua amiga. Não acho certo e...".

"Vamos transar já!"

"Mas eu não..."

"Já, Dusquene. Pro quarto..."

Fui empurrado, forçado, estuprado. Em agonia, eu arfava para seguir o script, enquanto os pombos se desbatiam no cercado estreito, assustados com alguma coisa ou com tudo.

Consegui, não sei como, mas consegui.

Dez minutos depois estávamos na sala, esperando Vicky.

Um toque na campainha.

"E ai", disse Vicky, "Vocês se deram bem? Gostou do Duc, Buba?".

Buba me olhou, séria. Bochechas infladas. Beiços grossos e curtos.

"Sei não. Ele é chegado a gatos".

...

meu medo
é não ter tempo para coisa alguma
que valha a pena
o tempo é curto
e estamos correndo como loucos
para o quê? Não sei...

não sei o que dizer
ao velho amor
nem porque
a alegria das pessoas,
a confiança das pessoas,
me faz tanto mal

talvez porque eu não as queira ver,
talvez sejam a causa dessa angústia,
talvez eu não saiba nem isto

talvez sejam elas justamente o meu medo...

O fato é o mesmo e sem razão alguma V

não briguemos mais por causas risíveis
a vida é maior que isso, baby
- ou talvez seja justamente isso
não percamos mais tempo remoendo o nada
que isso nada vale e perderemos um tempo
que poderia ser compartilhado com um drink
e uma boa conversa, leve, no sofá
eu massageando seus pés, você sentindo cócegas,
eu bebericando e você me contando, dizendo feliz,
notícias que eu não escuto

Minha alma ilusória em vertigem cai

como nação, fracassamos,
o país está condenado
à mediocridade,
pelo povo que tem,
pela falta de escolaridade atávica,
pela imbecilidade geral,
pela miséria,
pela burrice

como nação, fracassamos,
não há saída possível,
só persiste um enorme desprezo,
e a uniformidade dos seres
atoupeirados

melhor se fôssemos
exterminados, como praga,
como erva daninha,
pois somos o que somos,
e não seremos mais que isso

Em um canto em que me acho triste

esta noite
esfriou,
e isso é bom,
porque as pessoas
se recolheram,
cerraram portas e janelas
e cortinas,
e isso é bom,
e as ruas e bares
estão desertos

os ruídos
serenaram,
nem subsiste
a velha expectativa

e podemos dormir,
pacificados,
e a dor não será, assim,
tão assustadora

como se a paz,
finalmente,
pousasse
sobre a terra

porque esta noite
esfriou
e isso é bom,
realmente bom






segunda-feira, 11 de maio de 2015

Sob a marquise, o gelo

quando sentamos
na mesa de um bar
temos que lembrar
das possibilidades
e não remoer derrotas
estas já pagamos caro,
ou perdemos a mulher,
ou mijamos fora com o chefe,
ou chutamos o cão

mas, que diabos!,
quem nunca fez
uma cagada da grossa na
porra da merda dessa
vida ordinária

Bill pedia desculpas
de hora em hora,
até que a chefia cansou
das desculpas de Bill e
mandou ele pra rua

é assim que funciona o esquema
todos nós seremos despejados um dia,
ou pela mulher, ou pelo maioral da ocasião,
ou pelo cachorro, ou por Deus,
não importa

e sentaremos
num bar qualquer
cerzindo nossos traumas
familiares, nossa incapacidade,
antevendo o inferno que virá
quando dobrarmos a primeira esquina,
logo em frente