sábado, 20 de abril de 2013

Um dia fenomenal em Kansas



um dia o porre foi tão bruto
que guardei a carteira no congelador
do refrigerador
acordei tonto, tropeçando na cadeiras,
uma dor de cabeça infernal,
fui até o banheiro,
vomitei,
depois vi minhas calças
jogadas no corredor do apê,
o alarme acendeu,
fui direto nos bolsos:
- Cadê a porra da carteira? Oh, meu Deus, não faça isso comigo...
Revirei o apartamento como um insano,
procurando a droga da carteira,
tirei almofadas, botei o rosto nos fundos do
armário, observei se debaixo do tapete tinha algum monte,
olhei até na privada, para ver se não estava entupida,
com a ponta do objeto pra fora. Nada.
Aproveitei e caguei para regular os nervos,
me acalmar, respirar.
- Caralho, fui roubado ou deixei a carteira cair do bolso,
em todo o caso, FODEU!
me lmpei e fui até o refrigerador,
uma cerveja talvez melhorasse as perspectivas,
fui, imaginando os documentos que teria que tirar 2ª via,
peguei a Bud e, não sei o porquê, resolvi olhar o congelador,
E LÁ ESTAVA ELA, A MALDITA DA PORRA DA CARTEIRA!!!
A segurei com fervor, tremendo, como se tivesse
em minhas mãos os pregos da Cruz de Cristo.
Beijei o troço petrificado,
sorvi um longo gole da cerva,
e, relaxado, coloquei  a carteira aberta,
ao sol,
e, bem, tudo voltou a ser a maravilha de antes,
um vida que não era das piores.

Filosofia de albergue


Vicky Valentine deu o rabo e se arrependeu
Era o único buraco virgem em seu corpo
Ellmore aproveitou bem aquele buraquinho
Depois, quando Vicky chorou,
fez de tudo para confortá-la:
"Foi só no cuzinho, bem. Ninguém nota".
"Mas você me arreganhou..."
"Que nada, baby. Só foi a metade..."

...

entre, Dusquene,
sinta-se à vontade...

é a vida,
esse mal necessário,
sinta o
oxigênio

não,
você se safou do enfisema,
da máquina de
oxigênio
como o velho Walter
de sua novela
Moto Continuum

entre, Duc,
o pato que anda,
o escárnio universal,
a bebida espera você
no bar
infecto
e limpo de
ninguém



Canto do jovem homem enfermo


lá vai a silhueta de um homem só
carregando o peso de ossos e carnes
passa por prédios e galerias
vai no frio da manhã cinzenta
o homem tem asma, e tosse,
tosse agravada pelo cigarro
é jovem ainda esse homem
e está se formando e está bebendo
e deseja ser um escritor, só isso,
mas o mundo é repugnante e prefere
ler os idiotas, os que vendem,
mas ele ainda escreve muito mal

vai longe agora a silhueta de um homem só
enfrentar mais um dia de trabalho estéril
manchar seus dedos com a graxa roxa dos carimbos
intoxicar-se com vidas imprecisas, sem pauta,
com os risos de tantos rostos felizes e tremendamente sós

Um quadro feito de beleza que não existe em qualquer lugar



essa mulher é a beleza passando
diante de meus olhos cansados
ela me daria um bocado de trabalho
mais eu a faria feliz

eu lhe ofereceria um drink e lhe daria um beijo na nuca
falaríamos de pássaros, peixes e cães
eu perguntaria sobre a sua vida
ela me diria pouco
eu pouco falaria
também

eu guardaria a sua beleza triste, mas voluntariosa
nesse quadro impressionista
do meu amor de ontem
que ontem vi

Cães



é como se fosse uma noite de cães danados
a uivar para a lua
homens e mulheres vão aos bares
a festa se instala
e eu quero estar nela
dentro dela
com um copo
na mão

como cães danados saímos em matilha
e vamos nos mordendo e ferindo
mas sempre juntos

70 ou outra coisa que me venha à cabeça


Bukowski disse
"ficção é a vida melhorada",
ele estava certo,
mas não disse para ninguém
fazer literatura,
pois é algo que só serve
para apodrecer nas estantes

aliás, escrever sempre leva a chancela
de uma época, de uma década, de um período,
tentei ler de novo "On the Road", não consegui
está marcado com o selo dos anos 40/50,
não tenho como ler,
desculpe-me Kerouac,
mas você tem - teve - importância crucial
para quem quer entender o troço

não tem nada que me interesse nas livrarias,
um dia tentei, não encontrei nada de valor,
nada realmente que despertasse a minha curiosidade -
oh, bom Deus, santa curiosidade que me fez descobrir
esses santos marginais, ou nem tanto assim,
dos anos 50/70

para mim a década de 70 foi mais importante que a de 60,
a década que moldou o mundo como ele é,
a década em que todos perderam a inocência, uns mais outros menos,
a década na qual a máscara da invalidez humana foi escancarada foi a de 70,
sem dúvida