quinta-feira, 14 de março de 2013

O fato é o mesmo sem razão alguma V


não briguemos mais por causas risíveis
a vida é maior que isso, baby
- ou talvez seja justamente isso
não percamos mais tempo remoendo o nada
que isso nada vale e perderemos um tempo
que poderia ser compartilhado com um drink
e uma boa conversa, leve, no sofá
eu massageando seus pés, você sentindo cócegas,
eu bebericando e você me contando, dizendo feliz,
notícias que eu não escuto

No lar ardente sobre a relva fresca

"Você fica aí sentado nesse sofá, mamando uma dúzia de cervejas por noite. Você não sai comigo. Você não presta, Seymour!". "O que é isso! Tivemos aquele jantar na casa do Bullford e da Annie há três meses... Não diga que eu não sou um cara legal". "Você não liga para as minhas necessidades. Estou perdendo a vida neste apartamento. Entra dia, sai dia, e nada acontece". "Como não? E aquele atropelamento do garoto aqui bem em frente na semana passada?". "Até a Suzzy não aguentou. Foi morar com uma amiga. Pelo pai que tem...". "E você acreditou nessa história? Ela juntou os panos de bunda com aquele desgraçado magricela que vinha aqui filar o meu almoço". "Não diga isso de nossa filha única, seu imundo. Você realmente não presta". "Eu sou um bom marido pra você, Minnie". "Marido bom, é marido morto!"

quarta-feira, 13 de março de 2013

Mil pesadelos em meio à névoa da cidade suspensa



Era um castigo maldito.

Acordava aspirando a fumaça de breu da Steak Grill, ao lado. As janelas do cubículo onde eu morava pareciam feitas de carvão, de tanta fuligem depositada pelo vento. Fui reclamar com o gerente judeu do restaurante. O cara disse que iria construir a droga da chaminé até o topo do prédio dentro de um mês, no mais tardar. Um mês logo já era três.

Fui lá de novo:

- Estou respirando madeira torrada há três meses. Cadê a chaminé, Fullman?

- Sai em menos de um mês. Sem falta. Prometo.

- Esquece. Quero a chaminé para ontem. Trate de providenciar o troço, senão...

Fullman ficou sem cor. Entendeu a advertência como ameaça. Porém, eu quis dizer apenas que, se ele não erguesse a chaminé, eu apresentaria reclamação formal no Departamento de Obras e Posturas da prefeitura. Mas deixei correr, sem nada explicar, para ver no que dava.

Quinze dias depois a chaminé estava lá, suspensa no ar como a Babel antiga. Vazava dia e noite sua tosse negra. Mas nas alturas. Sobre os edifícios residenciais. O tumor carregado pela ventania.

Finalmente pude abrir um pouco as janelas. A fuligem não acabou de todo. Mas melhorou um bocado.

Num final de semana, Fullman saiu com a mulher para o litoral. Fechou a Steak.

À noite, um gato começou a miar, alto. O som escapava de dentro da chaminé. Talvez o bichano tivesse sido atraído pelo cheiro ou resto de carne e ficado preso, sei lá...

Depois de dois dias de miados infernais, sem ninguém pregar o olho, mesmo de ressaca como eu, a Obras e Posturas, atendendo a inúmeros chamados da vizinhança, arrombou o cadeado da Steak. Acharam uma ninhada de sete gatos pretos, negros como a noite, logo na entrada da chaminé.

Na volta, Fullman encontrou o estabelecimento interditado por evidente falta de higiene.

,,,


meu medo
é não ter tempo para coisa alguma
que valha a pena
o tempo é curto
e estamos correndo como loucos
para o quê? Não sei...

não sei o que dizer
ao velho amor
nem porque
a alegria das pessoas,
a confiança das pessoas,
me faz tanto mal

talvez porque eu não as queira ver,
talvez sejam a causa dessa angústia,
talvez eu não saiba nem isto

talvez sejam elas justamente o meu medo...

You


Você,
que pensa que será grande daqui a alguns anos,
que pensa que realizará seu sonho sob água matinal,
que permanecerá sempre tentando,até o esgotamento,
que sobre derrotas nada falará, justificando-as todas,
que fará uma merda atrás da outra

Você,
que buscará no álcool qualquer coisa de humano, e ficará vencido,
que procurará qualquer coisa sob o solar da lua morta e nada encontrará,
que desmontará a maquete antes mesmo do primeiro tijolo cozido,
você, homem, você, você mesmo, que dormirá com os porcos, no trajeto,
e que clamará aos céus pelo aniquilamento

Você,
que imaginará ter um tesouro sob a pedra,
que vomitará bílis e desejos ao lado da gorda mesa,
que espantará pombos como bichos humilhantes,
e se servirá do último drinque no copo americano,
você, homem, você, você mesmo, que é da América,
nua, escura, úmida, calorenta, bela
como uma stripper

Você,
que perderá os culhões sob as fachadas luminosas dos supermercados,
que antecipará o pagamento da empregada por pena e asco e insinceridade,
que dormirá sob as estrelas em uma noite clara de vigília bêbada,
que deixou para trás todo o legado de 50, 60 e 70,
que esperará somente viver um pouco mais mais,
para que o urso ainda tente abocanhar o peixe,
ou algo, assim, idiota e totalmente humano,
assim é, homem, assim

segunda-feira, 11 de março de 2013

Lição de um dia qualquer no ermo ali em frente


acredite,
estamos todos sós,
quem está a seu lado
também está só, nas
ruas rudes da city

não se engane,
não confie em ninguém,
bem em seu irmão, camarada,
nem em seu irmão

faça por você,
antes de tudo, por você,
persiga a sua meta,
ninguém fará isso por você,
mantenha-se firme,
aguente o ramerrão,
as coisas como são,
como elas ferem

mas faça acontecer,
berre se for preciso,
mas faça acontecer,
só para você sentir o gosto
de que valeu um pouco
todo esse barulho

Longe, onde ninguém me alcance


gosto de ficar só
trancar o mundo lá fora
não ter amigos é uma de minhas qualidades
sempre me achei só na planície e isso
é legal, é bom e honesto

quem gosta de gente deveria ir pro manicômio
gente incomoda, gente fala, gente fere os olhos
e, às vezes, as narinas

Blue Sue,
a gorda do banco,
se acha legal e especial, a Blue Sue,
mas é um troço terrível para se ver, para se empalmar:
toda aquela gordura e carne vazando
pelos lados e na frente

- Blue Sue, cê é uma merda! – lhe disse Seymour uma vez.

E Seymour estava certo.