segunda-feira, 18 de maio de 2015

Pandemônio ao clarão invoco

pombos, gatos
e assassinatos

há nas ruas,
todos os dias

convívio duro,
porém necessário
e urgente

há guerra em tudo,
na grama, nas calçadas,
nas árvores, nos parapeitos
dos edifícios do centro,
no asfalto, dentro dos carros,
em mim, em você

a cidade clama por assassinatos,
como se vivesse disto,
deste ódio,
desta tara

e, quando não ocorrem,
o que fazem com o giroflex
das viaturas?

sábado, 16 de maio de 2015

Uma tarde-noite como outra qualquer...no Finnegan's

Conheci Brenda Clark no Finnegan´s.

Eu estava bebendo no fundo do bar. Aí ela chegou. Não em mim, no balcão.

Gostei do tipo. Boas pernas, bons peitos. Vestido vermelho estampado escuro. Sapatos altos, pretos. Enfim, uma mulher...pensei.

Ela me olhou. Eu olhei. Ela piscou. Eu fui. Sentei no banquinho do lado.

Pedi um scotch. Ela foi de martini. Classuda.

- E aí, como você se chama?

- Dusquene, madame.

- Humm. Finalmente um cavalheiro na cidade.

- É. Pra variar, baby.

- Não me chame de baby. Eu não gosto.

- Tudo bem. Ficamos por aqui bebendo uns drinks ou vamos pra um lugar melhor.

- Tenho um apê aqui perto.

- Um bom começo.

Fomos pro apê. Belo apê por sinal. As cortinas afastadas mostravam um bom panorama da cidade.

- Acho que posso me acostumar com isso – eu falei.

Brenda riu. Desta vez eu pisquei.

No fundo da sala cor de salmão havia um piano de calda. Muito distinto.

- Você toca?

- Quer dizer...piano? Oh, não! Parei no quinto ciclo. Optei pelo golfe. Cê tá me estranhando?

- Calma, benzinho.

- Não me chame de benzinho. Não somos íntimos a esse ponto.

- Mas podemos ficar...

Então Brenda apontou para o quarto (presumo que era um quarto) no final do corredor.

- Que tal?

Fui grosseiro.

- Dá pra beber mais um drink antes do troço?

- Não. Quero agora.

- Se é assim. Estão vamos.

O colchão era de água. Não tinha como. Eu bem que tentava, me esforçava, mas o negócio empinava. Dobrava minhas costas. A instabilidade do líquido.

- Mete, vai, mete fundo! - ela dizia.

Após muito suor, carquei e fui. Resfolegando, o colchão subindo, Brenda descendo, o suor empapando tudo, o fim de tarde, o calor, a maldita dor nas costas, joelhos, cotovelos e mãos sem sustentação, tudo balançando como pinheiro num vendaval, mas, por fim, os vizinhos acabaram escutando o tumultuar dos ahhhhhhhhhh, baby, benzinho,isso, éééé benzinhoooooo, babyyy, urfghhhahhhhhhhhhh que foi se propagando até o balcão do Finnegan’s.

É, o Finnegan´s, bom bar para começar uma foda.

Por que me sinto tão mal

estamos meio perdidos nessa terra de ninguém
sem objetivo algum
só quentando o rabo no sofá
e esperando que algo aconteça
ou um copo de cerveja nos chegue às mãos

é um troço esquisito esse tédio
não sei o que vocês fazem
para confrontá-lo
- eu escrevo poemas
e tenho uma novela "Moto Continuum"

realmente não sei mais o que eu posso fazer
ou querer, ou ter, sei lá
as coisas precisavam fluir mais rapidamente
eu precisava querer mais até
- porém não quero nada,só quentar ao sol de agosto

é difícil não ter uma meta,
mas qualquer meta e merda dá na mesma
no final tudo fica extremamente ridículo
e sem sentido, de qualquer forma

Meu elo ao pé do monte

já tive ressacas
brutais

há anos, não mais

passei a estar no controle,
há tempos
a bebida não me
domina mais

antes, saia do trabalho
direto para o bar

foi assim
durante 6 anos

mas eu era jovem
e tinha compromissos severos

incrível estar vivo,
penso

jamais imaginei
que este tempo
chegaria

foi barra

Dívidas a apagar a termos


a vida é uma fornalha
é preciso ter a pele espessa
para suportar
as chamas,
o toque da brasa
diário

Gallaragh se matou
porque Mia o deixou

Bullford bebeu as
garrafas do mundo
depois que
sua vaca Elsie morreu

Parkinson passou mal
durante 25 anos
mas e daí?
quem se importa

os asilos estão cheios
de “quem se importa”

eu também nunca os
visitei

a vida é pesada
e dura
é uma fornalha,
que derrete
chumbo
e almas

sexta-feira, 15 de maio de 2015

O profeta nosso de cada dia


Ele passava quase todos os dias pela avenida, no meio da noite, gritando a plenos pulmões que o mundo iria terminar em poucos dias. "Vocês vão ver seus palermas. Ficam ajuntando dinheiro sujo, escroto, debaixo do colchão... VOCÊS NÃO TERÃO TEMPO DE GASTÁ-LO!"

Alguém gritava de um dos apartamentos.

"E o que você nos aconselha, Sulffock? Que a gente dê a grana pra você?".

Sulffock, de barba longa e cinzenta, roupas puídas, olhava para cima, tentava em vão achar o remetente da mensagem no meio das luzes acesas.

Não conseguindo, berrava:

"DEEM SEUS RECURSOS AOS POBRES DE ESPÍRITO! PARA QUE POSSAM SANAR SUAS MISÉRIAS E NECESSIDADES FÍSICAS ANTES QUE VENHA A CALAMIDADE TAMBÉM SOBRE ELES".

Um outro gritou.

"Acabe com essa gritaria, seu alucinado. Todo o dia é essa porra! São quase 11 da noite. Tem gente que precisa trabalhar amanhã. Vê se arranja uma sarjeta pra você se encolher e dormir".

"FALOU A VOZ DE UM PECADOR EMPERDERNIDO!", malhou Sulffock, desta vez identificando o dono da voz e apontando para uma das janelas onde se encontrava um gordo de 130 quilos, de camisa branca.

O cara ficou puto.

"FIQUE QUIETO! NÂO SE MEXA! VOU AÍ PRA LHE MOSTRAR O QUE É UMA CATÁSTROFE IMINENTE!", disse e saiu da janela.

Depois de procurar Sulffock durante meia hora pelos becos e vielas do quarteirão, o homem o encontrou dormindo como criança, numa manjedoura feita de pilhas de jornais velhos, que ele catava de dia para ganhar a vida e manter toda a vizinhança informada sobre os futuros e inadiáveis acontecimentos.

Um evento à luz do dia

ei, Joll,
o que você vai fazer agora?
afinal,
você não esperava por isso
não é, Joll?
eles não lhe deram estudo
só umas baganas
sem filtro
né, Joll?
por isso, teve que roubar
matar a fome
fazer a vida
Joll

puta-que-o-pariu
a bala foi um coice
no peito
do cara
tava ali à-toa
não tinha nada que tá ali...

não deu pra escapar, né Joll
você tem nervos frios
aguentou muita coisa
mas aquela
cusparada
não deu...
foi o cara é?
foi

por que ele lhe provocou?
ninguém sabe a paciência
de ninguém
ninguém sabe
não é, Joll?

Joll,
quais os seus planos na prisão?
quais os seus projetos para a Morte?
Alice talvez não possa lhe esperar
São 20 anos, Joll
20 anos
é demorado