quinta-feira, 23 de abril de 2015

Pobres, pobres, livres e pobres

o poema vem imundo
como os becos mais sórdidos da city
sai como um bêbado ao final de uma noitada
vem trôpego, mas verdadeiro

o poema mente como uma puta,
lhe dá o que você implora,
mija morno na sua perna e pisca,
cínico, humano e eterno
como a pobreza
na city

o poema chega morto,
cheirando a séculos e ferrugem,
como o último dos últimos
copos no balcão do bar
mais fétido

é o poema,
o que devem esperar de mim

Metrô

os lotes são estratégicos
homens e mulheres se posicionam
na plataforma, bem onde
as portas se abrirão
na chegada
da coisa

usam os cotovelos como lanças, prontas para o ataque
- são leões, palmilhando,
e quem invadir o seu espaço - é a presa

não há respeito algum
a compressão vai num crescendo
"ei, camarada, há uma grávida aqui.
Olha onde enfia esse guarda-chuva".

e eu, amarfanhado,
monitorando meus 30 cm2,
por longa meia hora,
volto pra casa,
no A320,
após
um feliz
dia
de trabalho

Meu eu que eu não domino

não entendo bem suas caras rudes,
sua apoplexia,
esperando talvez uma réstia de luz
em suas vidas mornas, inúteis

hoje é sexta-feira
os bares estarão cheios de nada,
amadores bebendo, mulheres lamentando,
tomados por velhas histórias e piadas

vão beber, urinar, rir, berrar
obscenidades para a lua
dentro da luz neon
da rua

pensam que isso é resistência, arte, mas não é,
eu não penso em nada,
mas é confortável ter o corpo
e a mente, cansados da semana,
finalmente livres

tirar os sapatos sujos
jogar meias, cueca e camisa no cesto de roupas,
uma toalha tampando o inferno,
estirar os dedos dos pés, grunhir um pouco,
e, por fim, dando tudo por consumado,
mamar uma cerveja, estalando de gelada

Pelo Ctrl-Alt-Dell

o sujeito deu oito tiros num computador,
porque a porra do ctrl+alt+delete não funcionou
pela enésima vez

o cara perdeu a paciência,
é preciso entender...
eu, pelo menos, sou solidário

realmente,
às vezes sobe a vontade de fazer um
Ctrl-Alt-Dell
a  tiros

isso,
quando as coisas não vão bem,
e nunca vão,
mas fiquemos só na vontade, somente,
porque senão ninguém vai dormir
neste país

terça-feira, 21 de abril de 2015

Um estranho caso de amor ao meu lado

Abri a porta. Na minha frente estava Walker, meu vizinho.
"E aí, Walker?"
"Só vim lhe informar que comprei uma boneca de plástico".
"Como é?".
Walker tinha 55 anos e me encarou com os olhinhos maliciosos.
"Caso cê queira pra alguma coisa".
"Tudo bem, Walher. Se eu precisar bato na sua porta".
"Fiz uns ajustes nela".
Fiquei curioso.
"Que ajustes?".
"Uma boca. A mulher veio sem boca. A merda dessas encomendas pelos Correios. Imagine, Dusquene... Como uma puta paga um boquete sem boca?"
"Realmente é um problema".
"Ela já me pagou sete boquetes desde sexta-feira".
Walker riu, mostrando os dentes amarelados.
"Se precisar, eu e Amber estamos à disposição".
"Se eu precisar, Walker, só vou precisar da Amber".
"Tudo bem, Duc. Tamos aí".
Quando Walker abriu a porta para entrar no 413, vi de relance sua amante estirada no sofá. Era uma loura de belas tetas.
Fechei a porta e volte pro quarto.
Marion dormia na cama.
Uma boa bunda sob os lençóis.
Pensei em fazer alguma coisa com aquilo.
Depois lembrei que Amber era mais ativa.
Marion tinha me agraciado no máximo com uns quatro boquetes na vida.
Já Amber...
Walker era um sujeito de sorte.

Relax, bastard

ei, cara,
aonde você vai com essa pressa toda?
o que você espera encontrar no final?
quer vencer quem ou o que?
quer alicerces rijos para a sua descendência?
mas você pode não conseguir
pode se esfalfar tentando, suando, tentando,
perder a sanidade, os dentes, a festa,
os drinques estão servidos, aproveite agora

ei, cara,
o que você pensa em fazer aos 50?
por que não relaxar e viver um pouco na sombra?
por que essa urgência plena e insatisfeita?
você pode não conseguir
pode rasgar os joelhos rezando, latejando, rezando,
mas não vai conseguir tudo o que deseja,
ninguém deixa, ninguém, aproveite agora

se acalme
e mande todos os bastardos que enfernizam sua vida,
com suas loucas necessidades, ir lá fora e juntar grandes bolas de merda

Enquanto calço os sapatos

quando calço os sapatos
sinto-me entregue
num cansaço corporal secular

tenho quase 50 anos...
mas sinto como se já tivesse vivido bem mais
as pessoas já não me interessam
sei muito sobre elas
e isto as torna, para mim,
aquilo que se põe no bueiro

raras são as vezes que suporto
seus olhares, seus andares,
é como se caminhassem para o nada
mas procriando feito porcos

creio que o homem está numa encruzilhada
e não decidiu que caminho seguir
parece que tudo já foi dito, feito,
revirado
não há mais boas-novas
nem a mínima perspectiva de uma bomba atômica
que pudesse dar fim a tudo

Otto Dusquene