sábado, 12 de abril de 2014

Sem saída num dia quente de maio

"Sei de umas coisas, mas acho que não vou lhe dizer, Dusquene". "Ah é? O que é, mano?". "Eu converso com o Grande Deflorador todas as noites". "E o que ele lhe diz?". "Que todas as mulheres me pertencem". "É". "E que ele somente permite que os outros as desfrutem - ou melhor, fodam - para a propagação da espécie. Mas todas me pertencem. É certo". "Então, obrigado por me emprestar a minha mulher". "Tudo bem. Mas cuide bem dela, um dia você terá que devolvê-la a mim. E quero receber o produto em bom estado, OK?". Olhei pro sujeito mais diretamente. Seus olhos estavam baços. Não sabia se ria ou lhe dava um murro. Por via das dúvidas, fiquei com a segunda opção.

Os Porquês

por que essa urgência, essa premência
                                        para magoar?
por que as ruas estão cheias de sonhos mortos
            que esbarram em pessoas tristes?
por que essa falta de?
por que a ficha jamais cai na máquina?
essa fatalidade...
          por que essa falta de qualquer coisa?
tanta ironia e impiedade
por que essa carência de sentimento?
ei,
ninguém sabe a quantidade certa de uísque
                     que traz a tal felicidade?
será que ninguém vê o que acontece nas ruas?
E por que tantos pobres e,
                                     principalmente,
por que tão poucos ricos
            com suas piscinas, carros, mulheres, 
    e garagens (quero o meu quinhão deste sonho)
              e possibilidades
                              e tudo o mais?
                           por que esse
abandono
              e essa insônia rubra?
porra,
por que ninguém me diz
                                 nunca
"vai cara, você consegue".

Eloisa

estamos no frio
é, no frio, entre prédios, gente, gatos, ruas,
queremos um pouco de tranquilidade,
ver o futuro antecipado,
o presente indo mais rápido,
como se nada passasse
honestamente
como os milhares de pessoas
que cruzaram o nosso caminho,
tolamente, para nada,
vejo longe uma estrela
ela é também uma idiota qualquer

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A Julia Newman

Nenhum corpo mortalmente insano
Viverá para contar, enquanto gritarmos
no calejado nó de nossas bocas...
no emborcar da garrafa em meio ao nada
aquele verde espectral, aquela parede morta
há muito, o quadro, a natureza morta, morta,
mais que Julia Newman em minha vida.

Se você souber onde ela está neste momento
Julia Newman... mande um toque
diga que o Otto escreveu este poema pra ela,
pra seus cabelos de trigo louros, para suas
ancas, para livrar-se do tédio do vinho passado,
para relembrar uma tarde
de pássaros sem gaiolas

Um jorro, um vômito

Dusquene, Otto

Profissão: ...

Idade: 49 anos

Expectativa: um porre menos dramático, talvez

Viver: um ato de fé, acredito

Fé: um ato

Um mulher: a que me faça rir

Mulheres: só algumas prestam, de verdade, em essência; a maioria só serve para enlouquecer o homem


Um estrondo na guerra intrínseca

falaremos de muitas coisas
coisas imprestáveis para serem ditas
e nem iremos entornar o último copo
porque não deu

teremos que nos haver com as sobras do supermercado de
cinco semanas
e não mais riremos
porque as lembranças estarão meio enevoadas nesta época

e somente teremos pena de nós mesmos e do que nos tornamos

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

,,,

Ela tinha o olhar remelento e turvo e uns olhinhos de cone como se seu olhar passasse num túnel de concreto. A mulherzinha era insignificante, mas atormentava todo mundo. ERa puro ódio e descontentamento com tudo. Era o deserto, o nada, o vácuo.

Sei que você tem uma dessas em sua vida...

Beba em sua glória.