você
é para mim
um espetáculo
tudo
o que você faz
é bom
e
generoso
até as brigas
são esplendorosas
casal que não
briga
não se ama
- você não quer acreditar,
mas é a pura verdade
as unhadas,
a sua cara de raiva...
são marcas em mim
saem, com o tempo,
mas são somente minhas,
de mais ninguém
quinta-feira, 2 de maio de 2013
quarta-feira, 1 de maio de 2013
Tattoo
Um miniconto do Otto Dusquene
Misty começou com uma tatuagem pequena, em forma de uma pequena buceta, no lado direito do pescoço. Na verdade uma daquelas flores que parece uma racha. Achou legal, fez uns ramos do pé da flor até o meio pescoço.
Ficou realmente legal. Mas estranho. Os pais se horrorizaram. Os amigos nem tanto. Acharam bacana o troço. Os ramos da buceta do pescoço pareciam nascer dos peitos de Misty.
Ela resolveu, então, fazer da flor única um bucetal, estendendo o jardim por toda a face direita. A mãe desmaiou. O pai a expulsou de casa. O namorado, que antes apoiara a merda toda, não aguentou o exotismo e deixou Misty com o seu roseiral de tattoo.
O tempo passou. Ela foi ficando cada vez mais esquiva. Passou a andar com pessoas cada vez mais esquivas também.
E, meses depois, ao acordar de uma bebedeira, Misty olhou-se no espelho partido do banheiro de um sujeito qualquer, a quem dera por não ter o que fazer na noite anterior e porque precisava de um lugar melhor para dormir. O que viu não foi bem o que queria. Aliás, não viu nada daquilo que queria.
Queria ver seu rosto antigo. Clamava pelo seu rosto de dez meses atrás. Sem adesivos. Sem carimbos. Sem flores-bucetas. Sem ramos, sem roseiral, sem nada. E começou a chorar convulsivamente, a se desesperar, a morrer por dentro. O que fizera foi um crime contra si, sua real identidade. O seu verdadeiro rosto, nunca mais.
Três dias depois estava morta. Cortara o ramalhete pelo talo.
...
Catchna
Catchna
Seu amor está distante de mim
como Sudeste Asiático
Estou bêbado, falando com a garrafa.
Bêbado, bêbado, bêbado
como um vaca Margot estrangulada
Oh, Margot
puta das mais longas pernas de Paris
Catchna, Catchna, vem para mim...
Um grande amigo do homem
"Onde está Penny? Você viu Penny, mãe?".
"Não". Veja se está debaixo do sofá".
A garotinha saiu gritando "Penny! Penny!"
A mãe ficou na sala. De repente viu uma bola de pelos malhada saltitante.
"Gina, Penny está aqui!".
Gina veio correndo. Viu o minicoelho.
"Ué, mãe, que é aquela mancha em cima dele?
Minnie chegou perto, pegou o minicoelho. Examinou a mancha. Sentiu algo.
Levou o bicho ao nariz.
"É merda!"
Foi aí que Bullford entrou na sala, ainda afivelando o cinto nas calças.
"Seu filho-duma-puta! Cê limpou o cu com Penny, não foi?"
"Que cê queria que eu fizesse? Pedi o higiênico. Você estava demorando... O bicho entrou no banheiro, daí pensei... Por que não? E digo mais: não existe nada tão macio. Um dia você devia experimentar".
Gina saiu da sala chorando.
Penny ficou ali, cochilando na mão de Minnie.
Blind Date
“Quem é?”
“Aqui é Rajesh Voojoo, secretário do Grande Aranda Kalapajaloo. Informo que o senhor se encontra em atraso com uma mensalidade-doação para nossa entidade”
“Como é? Quem é?”
“É o Rajesh Voojoo, secretário do Grande Aranda”
“Escuta aqui, Voodoo...”
“É Voojoo, senhor”
“Tudo bem. Que seja. Eu não sou filiado a nenhuma seita. Só contribuo com o asilo das putas, quando dou uma”
“O senhor realmente necessita da espiritualidade do Grande Aranda... Venha nos fazer uma visita. Aproveite e traga o carnê para o pagamento da mensalidade”
“Ó cara, vá se foder. Já disse que não conheço nenhum Kapalo...”
“Desculpe. Mas é o Grande Kalapajaloo...”
“Esse mesmo e...”
“O senhor precisa pagar a mensalidade para manter acesa a sua vela da vida. Senão...”
“A vela é grossa, Raj?”
“É. Por que?”
“Enfiei ela toda no cu do Grande Aranda como minha contribuição particular para a ordem”
“Mesmo assim, gostaria de lhe informar que sua mensalidade ficará em aberto em nossos arquivos. Ligarei dentro de uma semana”
“O que? Alô... alô...”
Pensamento
O perigo está
Em não dizer a palavra exata
É não ter opinião sobre alguma coisa essencial
Eu escrevo para ver meus demônios
Não para a posteridade, essa puta,
Mas escrever não deixa de ser uma forma de ação
De rebeldia, de ir além da morte, da dissolução
Cada página em branco que preencho
Fortalece a mim, atiça, anima
Engrossa o fio da vida
E apressa meus dias lentos
Talvez eu seja realmente egoísta
E não queira desaparecer simplesmente, como qualquer um,
Atravessando o neon das ruas como uma sombra
Que não se prende a nada
Vanda Velt
Vanda Velt, que mulher. Quando ia ou vinha do balcão, os caras uivavam. Aquelas pernas brancas de potranca polonesa, a Vanda Velt. Ela sabia como açular a turba, remexendo os quadris, pisando como tigresa. Era um espetáculo. E gratuito. E a um metro da gente. Deixava qualquer um de pau duro.
“Me faz uma massagem, Vanda? Tenho cãibra...”
“Aonde?”
Eu descia, brincalhão, os olhos pro garoto teso.
“Vá se foder, seu miserável”.
E me atirava na cara, gargalhando, o pano de limpar balcão.
Todos gargalhavam numa confraria.
Naquele tempo, as noites eram excepcionais no Finnegan’s.
Realmente excepcionais.
Havia Vanda Velt.
Que mulher.
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