quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

SORTE! Meu amor recluso...

Não jogo há um mês. As pedras me ludibriaram. Estou puto. Dei um tempo. Não adianta forçar a barra quando a Sorte – ou algo parecido com ela – não colabora. Como já comentei, faço uma aposta leve, por diversão. Uma vez ou outra arrisco uns trocados a mais. Nada desesperador. Não quero perder o sonho com isso.
O país não tem me favorecido. Os imbecis estão por aí coçando o saco e ganhando dinheiro. Cada coçada, dois mil. Como conseguem? Eu ainda encontro a porra dessa fórmula esquecida num balcão de farmácia, sei lá. É de impressionar como coisas boas acontecem a pessoas medíocres. Não precisam mexer um músculo e os bolsos já estão cheios de grana – não sei se obtida de maneira lícita ou ilícita, isto é com cada um.
Sempre tive algo semelhante à fé. Uma certeza, talvez. Certo otimismo escondido e indesculpável. Embora desanime no curso da obra, não sou daqueles que jogam a toalha no primeiro ou segundo round. Sou curioso. Quero ver como a coisa vai terminar.
Só estou dando um tempo.
Um dia, quem sabe, a Sorte entrará por aquela porta e sentará no meu colo.
“Ah, Dusquene, que bom que desta vez será com você”.
“Baby, eu nunca te vi, mas sempre te amei”, direi eu, original, passando o braço em sua cintura.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Quem cuida dos pobres neste mundo infame?

os hospitais do país são matadouros públicos
onde os pobres chegam para morrer
em macas nos corredores,
em UTIs coletivas e úmidas,
não sanitizadas,
uma morte dolorida, aberta,
programada

como doentes internados não votam
os políticos os esquecem
os governantes os esquecem
os médicos os esquecem
a população os esquecem
o que os olhos não veem...
desaparece
foda-se!

(...)

“Mama Brown foi internada com uma infecção aguda no pâncreas”.
“É? Quando foi?”
“Foi ontem. Morreu hoje, às 10”.
“Puta-que-o-pariu! Mama Brown morreu?”
“Morreu, o enterro é amanhã, às 15h. Cê vai?”
“Sei não. Tenho umas entregas pra fazer...”
“Eu também tenho uns assuntos pendentes...”
“É, vamos ver se dá”.
“É, talvez”.

Pobre Mama Brown... que não tinha um ombro onde encostar a cabeça

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Meu medo é não ter tempo para dizer tudo o que penso

Ei, Fante!
Acorde, John!
Por que as margaridas não vieram no momento propício?
Por que o sol parou sobre as montanhas e não quis se pôr?
Por que estamos tão sós na Noite de Natal do hemisfério?
Por que essa sensação de náusea, esse pânico?
Por que levaram da mesa a garrafa de vinho, meio cheia?
Estamos sós nestas pradarias de carpete marrom?
E por que Josie não cuidou da mancha no sofá?
Oh, vida!

Ei, Fante!
Cadê você, John?
E Bandini com seus sonhos de Hollywood?
Por que as violetas estão mortas ao sol?
Por que a névoa azul-prateada cobre a cidade dos anjos?
Por que esses olhos tristes, úmidos de desamparo?
Por que a fisgada na barriga se lhe beijou a doce Lucy?
Assim é a vida John

Vá agora, não demore...
Se esperar, se esperar até a primavera
Você sentirá o odor, verá o grande esgoto
que se transformou a cidade das luzes e das possibilidades

Eu sou meio você John
Eu sou meio você Arturo Bandini
Sigo um pouco a sua receita –
e devo lhes informar que
ESTÁ FINALMENTE TUDO OK!

Enfim,
A vida é feita de tudo isso, de muito disso que você escreveu, Fante...
De gente confusa, de mulheres, de desejos e sonhos e fé,
de onde tiramos contos, romances, novelas,
risadas, dores, lembranças fugidias e belas...
que ficarão para sempre
sob os olhos dos escolhidos
daqueles que SABEM

domingo, 5 de dezembro de 2010

A derrocada de um pequeno homem

- Ehhe. Ehhhehhheeh.

Olhei. Era um velho, chamado Sigmour.

- Que foi? Não vai com a minha cara? - perguntei.

- Eu já tive mais mulher que você, Dusquene.

- Bom pra você – eu disse e beberiquei meu gim.

- Guardo o nome de todas as mulheres que fodi neste caderno. Ehhhehhhh.

Sigmour balançava uma agenda ensebada, ou algo assim.

- Como é que é, seu maníaco?

- Tá tudo aqui. Nome, local, horário da trepada.

- Você precisa ir ao psiquiatra, Sigmour. E isto é pra já.

Sigmour abriu o livro.

- Ahh, tive mais mulheres com “V”: Victoria, Vance, Vanda...

- Wanda não é com “w”? – perguntou um dos clientes que acompanhava a conversa.

- As minhas são com “V”. Tive três VANDAS.

Sigmour abriu seu sorriso desdentado. Tinha uns 70 anos.

- Me orgulho muito deste livrinho.

- Deixe-me ver os nomes – disse o cliente.

- Isto não é para seus olhos, filho – disse o velho.

- Queime ele - eu disse – ou passe os nomes a limpo. A agenda está porca, imunda. Acho que você não consegue ler os nomes que estão aí.

Sigmour ficou puto.

- ISTO É MINHA VIDA, DUSQUENE. ISTO É TUDO O QUE ME RESTA NESTA MERDA DE VIDA. NÂO ME VENHA COM BRINCADEIRAS!

No que ele falou a agenda veio abaixo. Esfarelou-se.

As folhas espalharam-se pelo chão do bar. Caíram aos pés das pessoas.

E estavam todas em branco.

Sigmour olhou as folhas jogadas pelos cantos. Sua boca começou a tremer. Depois seus braços e pernas. Depois ele inteiro.

Via diante de mim o desmoronar de um pequeno homem. De uma ilusão.

Fiquei triste. Mas não podia fazer nada.

Aliás, fiz. Levantei Sigmour do chão.

Paguei a ele uma bebida forte. E continuei a beber meu gim.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Que você seja o culpado de sua morte

Estamos saturados de várias coisas. De pessoas, de filmes, de animais, de insetos, de salgadinhos, de TV, de falta ou excesso de higiene, as mulheres saturadas dos homens e vice-versa.

A civilização nos força ao convívio, o telefonema nos alcança agora em qualquer lugar, chegamos quase a tocar nos atores com a tecnologia de ponta das TVs. O que nos falta? Tempo.

Se você fala hoje prum sujeito "relaxe, cara", "pegue sua garota, sente num bar, à beira da piscina, peça uns camarões empanados e tome uns drinks", "abra a camisa, deixe o sol bater no peito", é bem possível que ele lhe tome como um louco. "E a grana? Como eu faço pra ganhar dinheiro. Não tenho tempo para me acalmar, relaxar. Você é demente?".

O que você faz da sua vida é problema seu. Mas pense bem. Dê um tempo para você, AFINAL A VIDA É SUA. Não deixe que as premências, as urgências, a busca do (nem tão vil) metal consumam o pouco tempo que lhe resta sobre esta terra miserável.

FAÇA O QUE VOCÊ GOSTA, AGORA!

P.S.: lembrei agora que até comida vem (ou não) SATURADA, tem gordura trans, esse negócio todo.

Esse maldito preconceito que nos ferra

estamos presos nisto, vivemos nisto...
pessoas são hipócritas
caminham para o nada
mas levam seus sorrisos
sua aparente normalidade
seus preconceitos
seus senões

trabalhei numa companhia
nos 15 andares do edifício da firma não havia um negro
não havia nada escrito, nenhum memorando, logicamente
era ordem, implícita, do chefão: "sem negros"

por que isto? para que isto?
algo que só aumenta a raiva e a dor
e a apartação social

pessoas não gostarem de uma determinada raça,
de uma determinada cor,
de determinadas características físicas...
a quem isto serve?
não a mim

talvez a você?
Será?

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

eu poderia falar de algumas coisas...

você foi camiseiro
há sete anos está morto
uma das poucas pessoas sobre a terra
em quem eu podia realmente confiar

você passou os dois últimos anos
sofrendo com um câncer devastador
fazendo palavras cruzadas
no seu caminho sem volta
seus óculos
onde estão?

guardei uma foto, mais nada
sua confusão com o enfermeiro
minha confusão com os fios dos aparelhos
presos a você e a outros tais
na UTI coletiva, absurda
o fardo engraçado
afinal

queria lhe contar as novidades
o mundo prossegue no lodaçal
mas as contas pararam de chegar em seu nome
você tem esse ponto a seu favor
bem

sinto apenas
que seus 75 anos
meu pai
não foram em vão
de algum modo estranho
não foram

Otto Dusquene